sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O desespero da beleza



Minha própria ilusão fez de mim uma santa.
Sou filha nascida dos meus próprios pecados,
sou a flor dos ventos destilando aromas,
tão belos e fugazes como a beleza da rosa.
Sou senhora e escrava dos meus desejos ocultos
às vezes atada aos meus próprios tormentos,
faço de mim uma canção, triste lamento
que se derrama sem medida pelas escadarias.
Meu óbolo, útero de minha mater dolorosa sancta
Que mais parece um ícone de Virgem santíssima
a chorar meus encantos perdidos na noite
como a pietá de um Michelangelo,
na espera de um êxtase de santa Teresa.
Perdi-me nas espumas de Afrodite,
afoguei-me nos mares de Netuno,
caí à cólera dos deuses do Olimpo,
e minha beleza tornou-se dura como o mármore
e o prenuncio do perigo me dá a idéia
de me ver cair às mãos cruéis d’algum iconoclasta.
Chora, chora, chora, mortal, a perda de tua deusa
que outros inúmeros amores não substituirão o meu.
Chora, chora, e ainda chora...
Hás de ficar longe do meu amparo
hás de sentir frio o meu abraço,
que já o levou longe Coronte
nas turvas águas do rio Estige
com meu vulto a desaparecer nas trevas.

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