terça-feira, 27 de novembro de 2018

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)


O TEMPO E OS RASTROS
(Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, planeja uma sílaba aqui, outra acolá... gagueja algumas coisas. Se levanta, anda pelo espaço. Se senta de novo e começa a desenhar no chão com o dedo. Respira e começa a falar[1])

Quis eu contar uma história
tal minha mãe nos tempos idos,
contar com a voz de quem canta
essas canções muito antigas...
quando as casas eram de barro
e eram de pau as mobílias
canções não vinham pelo rádio
mas eram por todos conhecidas.
Como queria ter tal donaire,
de me fazer compreensível
nessa língua parca que me falo
e que pudesse transmitir-me...
Mas não... as palavras voam...
tudo se vai como um filme
ficam lembranças sem pé
nem cabeça. Ficam enigmas.

Só me lembro das cores...
sim as cores da minha morada.
Não as cores dos objetos
mas as cores que entranhavam
a vida que me era tão nova
e que novidades anunciava.
Como no dia em que meu pai
trouxe da feira uma vaca
trazia nos olhos um brilho
de cor esperança, exaltada...
Eu sei que vocês dirão
que isso não é cor, nem nada
é sentimento de um homem
que voltava para sua casa.
Mas nunca vou esquecer
dos olhos que assim brilhavam,
eram de cor tão intensa
que aos dentes poucos infectava.
“Que invenção é esse, homem”
disse minha mãe desconfiada...
não lembro que cor ela tinha
ou se tinha cor que eu lembrasse,
só lembro o tom de voz
de quem alvejava suas palavras
ao marido que todo contente
nem disso se atentava...
“É uma vaca leiteira, mulher,
das melhores da cidade,
pra tomar com café do bom
e pra engordar a filharada,
dá até pra fazer uns bolos
e quando não, fazer coalhada”
E eu no canto da parede
apenas as vozes escutava
porque esse palavreado todo
pouca coisa me falava...
De resto não ouvi mais tanto
porque logo fui arrastada
pela minha irmã Aurora
que ao terreiro me puxava
deixando meus pais na cozinha
decidindo o nome da vaca...

Nome que nunca guardei,
nomes não dizem muita coisa...
quando uma flor nasce no campo
sem nome ela desabrocha...
um bebê não batizado
chora em nós a mesma fome.
Pra mim tudo é supérfluo
porque é a vida que me importa.
Ah... repito, como gostaria
não ter perdido tantas memórias.
Tantos sorrisos que eu devia
ter guardado nos meus olhos...
ah, mas também as tantas lágrimas
que vieram das derrotas...
“Mana, por que essa cara esquisita?
Parece até que tá doida...
com a cabeça viajando
por não sei quantas voltas”

Aurora, minha irmã zombeteira,
com sua voz cor de terra...
trazia os espinhos e as flores
a maciez e as pedras...
de quem é a vida é ciclo
de nascimentos e perdas.
Uma mão que nos segura
e que tão pronto nos deixa
Perdeu-se ela mesma de mim
tornando-se outra, alheia
nessas memórias entrecortadas
nesse rio em que velejo...

“Não é nada não, Aurora...
que querias que eu visse?”
“Achei um enxame abelhas
dessas de mel de cupira
lá no juazeiro velho
aos pés da casa antiga...”
“Sabes que é perigoso, Aurora...
não quero sofrer castigo...
ainda mais se tem abelha
torna-se duplo o perigo”
Só muito tarde é que aprendi
que essa é palavra proibida,
porque mais que incitar fuga
a lançar-nos incentiva...
“Não sejas medrosa, mana!
Pode até ser divertido
e ainda viremos com mel
que com pão é uma delícia”

Não sei porque conto isto,
e nem porque me veio agora,
será pelos olhos brilhantes,
ou pela empolgação de Aurora?
Ou será que na minha busca
de recontar minha história
tento pegar aqui e acolá
imagens que se acomodam
ao tecido de uma narrativa
que aos poucos crie forma?
Não... há de ser outro motivo
que em mim grita e se esforça
por romper as grades que
no meu íntimo aprisionam
as cores que quero deixar
vazarem livres e soltas...

Mas que interessa ao público,
que eu conte tais asneiras
da vaca, do pai, da mãe
de Aurora, do meu tempo?
Não, vou começar de novo...
recomeço mais decente...
Com a voz de minha mãe
me chamando para dentro:
“Elizandra, ó Elizandra...
vem me ajudar no terreiro,
varre o curral das galinhas
e tira as roupas da cerca
que eu vou na casa de Tonha
pisar o café pra gente”
“Tá, bom, mainha, já vou...
fala que mandei um beijo”
“Não vou demorar muito,
uma hora mais ou menos,
teu pai chega daqui a pouco
vê se avisa pra ele...”
Lá se ia minha mãe levando
um saco de café preto
com as sementes torradas
pra moer no mini-engenho.
O seu peso sobre o chão
e a poeira pelos ventos...
onde será que estava Aurora
que não a vi até o momento?
Brincava ela no roçado
ou brincava no umbuzeiro?
Ou fora para a casa antiga
pegar o mel das abelhas?
Ah, não! Não havia abelhas ainda
não havia vacas e nem leite...
não havia a mão que vi pedir
que por favor a socorresse...
quando a vozinha cor de terra
vestiu-se luto cor de perda.

Ah não... não... não...
recordar é um precipício
para explora-lo não se deve
ultrapassar certos limites,
do contrário ele nos leva
da paisagem ao abismo
e a beleza dos olhos
se transforma em queda livre.
“Chora, chora, Elizandra”
foi o que minha mãe me disse...
Sua voz soava de aço
e era de uma cor cinza...

“Mana, o que achou da vaca?
Ela tem cara de abestalhada
Só fica comendo capim direto
e cagando por onde passa...
Não da pra montar, pra brincar
que bicho mais sem graça!”
“E o que é que tu quer, menina
é somente uma vaca!
Não é como o cachorro
e nem ainda como gato...
é isso, fica do lado de fora
pastando no cercado!
O importante é que dá leite
é isso e tá acabado!”
“Você é muito esquisita, sabia?
E às vezes é muito chata...”
Não sei porque nessa hora,
lembro que um vento soprava,
um vento como outro qualquer
vento de duas da tarde...
E eu e minha irmã Aurora
comentando sobre uma vaca...

“Elizandra, cadê tua mãe?”
“Foi pisar café na Tonha
saiu com um saco nas mãos
mas daqui a pouca ela volta”
“E essas roupas aí na cerca?
Tem que tirar elas logo
ou vão encher de poeira”
“Já vou tirar, meu Pai...
deixa eu só varrer o terreiro”
“Mas tu é atrapalhada, hem...
coloca juízo na tua cabeça,
se varrer levanta pó, criatura,
faz essas coisas direito!”
A voz do meu pai soava
de censura, mas sem medo.
Era a voz do homem do campo
e essas todos conhecem...
cada frase era uma enxada
que calejava outros dedos...
mas eram calos que faziam
que do nada florescessem
toda sorte de culturas
que habitam cá na gente.
“Olha, vou aqui descansar,
ficar de range-rede...
vê se tira essas roupas
e traz elas cá pra dentro”
“Sim, senhor, meu pai...
repouse que a mãe já chega”
O vento soprava forte,
soprava forte e sertanejo,
enquanto eu menina
colhia as roupas secas.
Tantos panos humildes
neles não vi nenhuma seda,
só algodão do barato
uns que minha mãe cosera.
Saias de chita e camisas
que toda a cor já perderam...
Só não a cor da infância
que a tudo isso permeia...

Tinha uma música
sim, eu sei que tinha...
cantiga de lavandeiras
e de doce melodia...
Ah... essas roupas
todas elas tão limpinhas,
minha mãe levava o riacho
e nas pedras as batia
e quando não tinha sabão
fazia sabão de cinza.
Como era a música, Jesus?

            (começa cantarolando baixinho e depois intensifica a voz)

“Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria
Por me verem assim chorando
Por me verem assim chorando
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia”

Aurora gostava dessa música,
aprendeu muitas outras...
com aquela voz cor de terra
e que dizia tantas coisas...
Aurora era meio peralta,
e de mente capciosa
tinha sempre aquela graça
que faltava em mim toda...
Eu sempre fui Elizandra
desengonçada e tosca...
Aurora não, era livre
na verdade, uma doida...
desejou ser bailarina
desde que viu uma foto
de uma moça bem alva
fazendo umas certas poses...
diziam que era russa
mas que brilho nos olhos!
“Que é isso, mana?
O que faz esta moça?”
“Está dançando Aurora,
numa finura toda”
“Será que eu consigo
fazer assim dessa forma?”
“Para com isso, menina,
isso não é dança de roda,
isso aqui é coisa chique
só dança quem pode...”
“Oxe, e pra dançar música
tem que pagar agora?
É só mexer os pés
e acompanhar a sanfona”

Se podes me ouvir, Aurora,
peço que me perdoes
por não ser quem tu eras
e carregar tantas dores...
Sei que zombarias de mim
por remoer tantas lorotas...
mas quando partistes ficou
essa casca meio oca
que se reconta para lembrar
de coisas que já não importam...

Eu poderia viver minha vida,
mandar ao diabo tudo isso,
o tempo cuidou de mim bem
me deu marido e me deu filhos...
O tempo enterrou meus pais
enterrou as cores que eu via
nas pequenas coisas que antes
em multicores se expandiam...
Por que, por que estou aqui,
com essa faca me ferindo...
a faca das lembranças insepultas
e das imagens reprimidas...
por que até hoje me soa
e me estremecem os ouvidos
o grito que há muitos anos
ecoou da casa antiga
se tivesse sido somente travessura
seria uma história de risos...
“Senhora, sinto muito em informar
e lamentar pela sua filha,
as picadas provocaram reações
que são chamadas alergias...”
Se fosse só uma aventura,
mas não, foi isso...

“Já pegou a roupa Elizandra?”
“Sim, meu pai, já vou levando”

“E onde é que tua irmã se socou?”
“Deve tá no mato catando flor”

“Vai trazer ela aqui pra casa,
que já tá ficando tarde”

“E onde é que deixo as roupas?”
“Deixa ai no canto da cama
e quando voltar tu dobra!”

Saí sem varrer o terreiro,
e com medo mamãe brigasse,
procurando por Aurora
que nalgum canto se socava.
Com certeza catando flor
ou se acabando nas goiabas
dos pés de fruta que tinham
um pouco pra lá casa...
Eu, menina, ia descendo
seguindo ladeira abaixo
deixando sem varrer o terreiro
que minha mãe tinha mandado.

Parece que as memórias
são esse terreiro esquecido,
que a gente deixou sem varrer
por sei lá quais motivos
e somente seguiu em frente
naquilo que a gente queria,
ou naquilo que fomos mandados
seguindo sempre um desvio...
Por isso quando voltamos
não é mais o mesmo sítio.
Os mais velhos sempre falam
em um dizer muito antigo
que ninguém mergulha duas vezes
nas águas de um mesmo rio.
E as folhas de um terreiro
não são outras todo dia?
E o desgaste da vassoura
não é um desgaste contínuo?
Como voltar a varrer, limpar
essas folhas que caíram,
se umas o vento levou
escapando-nos das vistas?
Por isso recontar dói-nos tanto
por isso é tarefa difícil
é contar com o que temos
e que não foi dissolvido.

Eu, que já fui toda fibra,
de carne e osso cá me vejo.
Eu, que já domei cada desejo
hoje a dor desequilibra...

Eu que ainda ontem menina,
vi em mim roer-me a idade,
a presença virar saudade
e o caminhar tornar-se sina...

hoje tento em vão juntar os cacos,
que, já desfeitos de tão fracos
balançam na rede aleatória

dessa consciência se findando
dessa voz que vai calando,
até cessar a própria história.

Aurora pegava flores,
Aurora comia goiabas,
Aurora se ria de tudo,
só não gostava da vaca.

“E aí, mana, vamos lá,
pegar o mel de cupira
a gente joga fumaça
e elas ficam bebinhas
derruba o ninho no chão
e enrola em uma camisa”
“E se as abelhas atacam,
ferroada dói, sabia?
Pede ajuda pro pai,
que é mais garantido”
“Quero fazer surpresa,
pra que fiquem felizes”
“É melhor não, mana...
acho que é muito perigo”
Aurora não gostou nada,
tudo lhe parecia simples,
ignorava ela os problemas
e só fazia o que queria.
Melhor era contar ao pai,
ver se lhe punha Juízo...

“Que conversa é essa, Aurora?
Perdeu a noção das coisas?
Vai... mexer com o enxu
ver o que é bom pra tosse!
Se eu souber que tu foi lá,
ah, no instante tu descobre
com quantos paus goiaba
a gente constrói um bote!”

Aqueles olhos incendiados,
eu nunca tinha visto antes
se recusavam a chorar
por força de vontade.
Seria birra de menina,
dessas que já passavam,
mas não lhe doeu a bronca
que o nosso pai lhe dava.
Doeu-lhe eu contar o segredo
que ela me segregara...
naquela noite ficou quieta
sem dizer uma palavra.
“Aurora, procura entender,
vai, não fica com raiva...
eu falei pra que assim
o pai nos ajudava...
agora com essa ideia fixa
a gente saia machucada”

Aurora não reagiu...
sem querer eu já a ferira
com a dor que mais dói
e que mais lento cicatriza.
Alguns de vocês pensam,
mas que coisinha simples.
é abelha, é criança,
são travessuras de menina,
logo, logo isso passa...
e tudo está resolvido.
Coração de criança, porém,
tem seus próprios mecanismos...
é mais frágil, mais intenso,
tem os seus próprios perigos.
É a alma da gente, só que nova,
a conhecer seus labirintos.

“Elizandra, me ajuda aqui,
coloca água nesse tacho...
hoje eu preciso lavar roupa
que amanhã vou na cidade,
depois disso pega um pano
e passa por toda a casa,
com esse tempo de seca
é poeira pra todo lado...
chama tua irmã pra ajudar
que ela já tem idade...”

“Aurora, me ajuda na limpeza,
pra mim sozinha é muito,
enquanto mainha lava as roupas
a gente faz isso juntas”
“Foi mamãe quem mandou, né?”
Respondeu com voz enxuta
“Sim... também minha irmã,
mas eu preciso de ajuda...”
“Eu vou, Elizandra...
você lava e eu enxugo”

O silêncio corre a casa
em cotidianas tarefas.
Duas irmãs se ajudam
e o silêncio entre elas
diz que toda fissura
é o começo da quebra.
Todo grito contido
é o começo da guerra.
Os gestos mecânicos
mostram bem os desafetos.

Lá fora o vento sopra,
com sua voz de lâmina,
afiando-se em punhais
no barulho das canas.
Dentro da casa ele para
com medo que arranhe
o cristal que fissurado
em cristais mil desande.
Há uma linha tênue
entre a ternura e o ranço.

Todo o tempo é longo,
quando há algo contido:
seja o choro que negamos,
ou a vontade do riso.
Esse olhar que mal se vê
nos dois olhos esquivos,
deixa de entrever o medo
de algo que fosse perdido.
Quando alguém limpa a casa,
vê a poeira subindo
e se esconder pelos cantos
nos ocultos recintos
para longe dos olhos.
regiões inacessíveis.

Eu não sei como prosseguir,
desculpem se estou confusa.
A cada parte que limpávamos
eu me sentia mais impura...
eu sei que era coisa de criança,
e que é de tal ser imatura.
Mas não ver Aurora sorrindo,
vê-la em aridez enxuta,
onde a obediência passiva
era sua arma de luta
fazia com que punhais
me penetrassem mais profundo
e tudo se traduzisse
em gestos agros de culpa.

Eu sei que, se falasse,
se desse minha opinião,
o máximo que teria
não seria um sim, nem não.
Seria um concordar seco
daqueles de ocasião.
Seria correnteza levando
a inútil discussão...
Terminei minha parte
e fui para o portão.
Esperei que o tempo
findasse a situação.
O tempo com seu pincel
mudasse a coloração.

Ao longe na cerca
mansamente pastava.
entre ervar e espinhos
a tão falada vaca.
Comia, comia e comia,
de repente se levantava;
olhava para o horizonte
e então a pasto voltava.
Sim, realmente insossa,
e totalmente sem graça.
Pode ser bela, concordo,
cada bicho tem seu charme.
Mas faltava nela o convite
faltava cumplicidade...
tudo nela era uma função
que em si já se bastava.
Sim, eu entendia minha irmã,
aquela falta de mágica
era incompreensível pra quem
tudo era novidade...
é como um livro sem desenho:
que já de cara é chato.

Nem sei quanto tempo fiquei,
absorvida em pensamentos.
Apenas quando meu pai chamou
com aquela voz de sempre,
foi que saí do meu mundo
para a vida novamente....
“Elizandra, cadê tua irmã?
Ela não tá aqui por dentro,
nem tá com a tua mãe,
e nem também pelo terreiro,
vai lá ver onde socou-se...
ai ai, não tem jeito mesmo!”

O meu peito apertou-se,
apertou-se de tal forma...
isso não era novidade
era típico de Aurora...
ela às vezes se embrenhava
pelas matas feito cobra,
depois aparecia em casa
com aquele ar de prosa.
Por que meu peito doía?
Eu não o sabia na hora...
só sei que doía muito
como uma ferida exposta.
talvez por saber no fundo
de coisas que não se tocam...
que, se tocadas de mal jeito,
de mal jeito elas explodem...

(Cala-se por um tempo... tentado lidar com algo, angustiado, pesada. Começa a chorar)

Aquela casa antiga,
foi o lar da minha primeira infância:
“Mana, você veio?”
Era uma casa simples
eram poucos os encantos...
“Aurora, sua maluca!”
Só tinha quatro cômodos
sala, cozinha, quarto e varanda...
“Vai contar para o papai?”
Um pé de juá já muito velho,
tronco de muitos anos...
“Olha só o que te aconteceu!”
Era nele que, escondido,
se encontrava o dito enxame...
“Se você contar, eles me batem”
Aurora caída no chão...
com a pele avermelhada...
“Olha como tu tás, criatura”
O enxame mais pra frente
com seu exército vigiando...
“Levei muitas picadas, mana”
O vento soprava pela serra
com seu silvar de lâmina...
“Não tô respirando direito,
tem um troço na garganta,
só ouço tua voz baixinha
e tá um frio muito grande...
Mana, papai vai ficar bravo...”

De resto lembro muito pouco...
Lembro do chão, lembro da maca...
lembro do meu pai gritando...
lembro de minha mãe assombrada...
nem lembro como chegamos ali
lembro do médico, da bata...
lembro de Aurora lá dentro,
lembro de não sentir nada,
acho que por sentir já tanto
não tinha mais que ser abalado.
Lembro da palavra alergia...
lembro... não, não lembro mais nada.

E o monte de gente,
as mulheres, as velas,
o vigário de preto
conduzindo as rezas.
Minha mãe pelos cantos
e as horas de silêncio?
Tudo se mistura aqui...
num sei lá que não entendo...
por isso não consigo soltar
por isso que está preso...
não tem chave no mundo
que tire dessa cadeia

O que mais me disse Aurora?
Quais foram suas palavras?
Disse-me que não fosse,
disse-me a não deixasse.
As mãos seguraram as minhas
com aquela sua vontade,
como que pedindo desculpas
sabendo que errara...
O rosto vermelho de dor
e os olhos cheios de lágrimas.
Até que do pai ouvimos a voz
e um eco ao longe, abafado...

E o resto?
O resto são os rastros...
as cores de um quadro,
vistas por um míope
sem saber mais nomeá-las.

É o que dá tentarmos
brigar contra o tempo,
quando este já cansado
lança fora os fragmentos...

Ai... Aurora...
já faz tanto tempo...

filha, vem me ajudar aqui...
a vó tá cansada...

(entra uma criança e segura a velhinha pela mão)

-Falando sozinha de novo, vó?
- É coisa de velha, Aurora...

(Saem as duas)

Tiago da Silva

[1]Não terá neste monólogo comandos de ação, a não ser os indispensáveis. Deixou o autor para o intérprete a movimentação no palco.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Quando morreres

Quando morreres,
talvez te enterrem em cova
ou gaveta.
Talvez façam pra ti
um lápide
e um epitáfio.
Talvez tenha apenas
a data de nascimento
e o obituário...

Quando  morreres,
talvez muita gente chore,
muita gente sinta
a falta que deixas,
outros talvez se deprimam
e alguns extremos
morram de tristeza
ou se matem...

Quando tu morreres,
talvez te deem flores
te façam homenagens
te escrevam poemas
coloquem fotos na sala
falem de ti aos que visitam
e te visitarão no dia de finados....

Quando morreres...
porém, tudo isso será nada...
e como, tu,
também passarão....
um dia, as pessoas esquecerão
que tu exististe...
e se fores famoso,
no máximo entrarás
na mitologia popular,
mas ninguém sentirá
saudades de ti...
Não, quando morreres,
serás só mais um esqueleto
dentre os milhares
que jazeram na mesma terra,
te decomporás
igual aos outros
sem te dares conta.

Quando morreres...
será só um morto a mais!
E eu sei que é trágico
saber dessas coisas
mas não podemos fugir!
Os abraços são hoje,
as lágrimas são hoje,
as palavras são hoje
os poemas são hoje,
o que tens a sentir,
é no dia de hoje...

quando morreres,
nada mais será...
porque tu não serás...

serás só pó
que a cinza do tempo dissipará
enquanto a cova que te abriga
se enche de musgo
e acima do teu corpo
a erva floresce
sem nem saber que estás aí...

quando tu morreres.

sábado, 3 de novembro de 2018

Pátria que me pariu

(Entra um soldado segurando uma bandeira do Brasil. A estende sobre a mesa e começa a olhar para ela)

SOLDADO (para a plateia)

Há ruinas que o homem visualiza. Fora dele. Aos olhos dele... ruínas daquilo que foi casa, bairro, vila e que hoje só são escombros. Pedra derrubando pedra. Bem, é assim que é a guerra. Sei que muitos de vocês deve imaginar isso dos filmes que passam na TV, dos relatos de ex-combatentes, sei que muitas de suas crianças brincam de soldado, polícia e ladrão e todas essas brincadeiras. Admito, eu mesmo brinquei muito disso. Mas a brincadeira de uma guerra, o filme de uma guerra, o livro de uma guerra, não é a guerra. Acreditem. (pausa) Mas não é isso que eu quero falar... desculpem. Eu estava falando dos escombros... sim, vi muitos deles. Alguns ajudei a criar, outros ajudei a evitar, mas há outro tipo de ruínas. Essas, os olhos não veem, os jornais não noticiam, é de difícil percepção. Sim, há outro tipo de ruína, mais volátil, porém mais densa. Mais íntima, porém mais cruel: há a ruína do retorno a casa. Aparentemente tudo está no lugar: a mesa, as cadeiras, os retratos na parede, mas nada está no mesmo lugar se aquele que retorna não é mais o mesmo. (Explora o ambiente) Quando saí da quarta divisão de tiro do vigésimo regimento da infantaria, fui condecorado e o coronel me deu esta bandeira que estou carregando (mostra bandeira ao público) e me disse: “Vai, filho, volte para casa, para a mãe-pátria”. Peguei o avião e pisei de novo em solo nacional, portando essa bandeira. Porém o rosto que eles viram chegar foi o de um herói manco que desaprendeu tudo, o de um homem ferido; não o de um guerreiro, mas o de um animal ferido. (Silêncio) Entretanto havia ainda a esperança, vou chegar em casa e mostrar essa bandeira para meus amigos, meus primos, minha mãe. E quando cheguei em casa tudo o que eu encontrei foi uma senhora doente, feliz por minha volta, mas sem força pra comemorar. Os meus amigos e primos, os que não haviam morrido, ainda estavam no front ou estavam tão amargurados quanto eu que não tinham forças para comemorar. Mas as palavras do coronel ainda soavam “volte para a mãe-pátria”. E parece que só ela me sobrou. Isso aqui... um pedaço de pano, algo por que todo soldado daria a vida. Algo que todo regimento jura antes de ir ao combate... isso aqui. Bandeira. flâmula, estandarte, pendão... com suas cores e seus símbolos. Isso aqui, que o capitão dizia “é a mãe de vocês agora”. (Pausa) Se isto é minha mãe, quem é aquela senhora que está na sala descansando frágil? Se isto é a mãe, quem são aquelas que choram pelos caídos? E quem é a mãe daquelas que choram? Poderia eu queimá-la, mas esta não choraria; poderia rasga-la, mas não esboçaria reação; poderia eu fugir, mas do céu ela tremularia ao vento que sopra. Sim, neste ponto posso admitir que lembra muito uma mãe... mas tem diferença entre deixar pra lá e chorar a partida do filho, entre não reagir e ser corroída pela perda de alguém querido. Ah, quando se se vai ao enterro de um amigo e que a mãe dele está ao seu lado, a bandeira não consola, nem traz ele de volta. Não, ela não reergue as ruínas que asfixiam o peito de quem volta pra casa. Vejam, meus senhores! Vejam! De que me valeu o sangue vertido todos os dias, de que valeu condecoração, de que valeu matar, de que valeu ser quase morto, a fome, o medo! Morrer por isso aqui? Pátria? Ouvi de um moço certa vez “minha pátria é minha casa”. E que se fará daqueles que não tem casa? Que se fará daqueles que não tinham quem os esperasse no desembarque? E dos vencidos? Que se fará... respondam! Todos vocês amam o que não veem! É muito fácil falar de patriotismo, é muito fácil falar de inimigos, mas quando foi que vocês olharam nos olhos daqueles que você é programado a odiar e quando foi que vocês amaram de verdade os heróis que aprenderam a amar? E que patriotismo há quando nas ruas vocês se digladiam pelos seus partidos, times de futebol, candidatos políticos? E não é bom soldado aquele que, por amor a isso tudo, deixou o maior número de cadáveres do inimigo no chão? Admitam, meus senhores, que no fundo, vocês estão indiferentes a isso tudo. Admitam que no fundo, a casa é mais importante que a terra, que o bem da sua barriga é mais importante que o bem da nação. Talvez aí e só aí, quando estiverem diante de uma rajada de metralhadora se lembrem que o objetivo maior nunca foi a pátria, mas voltar vivo. Não foi país nenhum, mas foi o sofá, a mesa em que se possa descansar. Talvez, repito, só aí, olharão para a bandeira e dirão... é um pano! Não é mãe... que se exploda esse ufanismo, que se dane o simbolismo! Nada disso importa quando é de ruínas que estamos falando. (solta a bandeira no chão e sai)

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...