quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Olhares


Olhares

Cá me encontro, tu me vês
caída como um anjo caído
que machucas e não o vês
o deixas só e sem sentido
e assim de vais
pra nunca mais
sem nem meu pranto notares
apenas uma questão d'olhares

E cá eu fico, somente triste
sem saber o que eu te fiz
ou a razão por que partiste
e me deixaste tão infeliz
que só eu sei
o que passei.
Mas falta tu reparares
apenas uma questão de olhares

E por que te vais novamente?
E me deixas jazer esquecida
como um capacho somente
que te traz mal a mal dormida
e fica assim
e é o fim
De todas as esperanças a dares
as tuas questões de olhares...

Mas vai-te embora, parte
que a dor ja muito lateja
e ficar só me dará alarde
estejas tu onde estejas
há de ficar
o teu lembrar
que me dizia aos pares
amor é uma questão de olhares

Tu foste embora e eu fiquei
sem rumo ou caminho próprio
nem sei se te esquecerei
tua carne foi como ópio
algo vil
me destruiu
uma doença a sarares
sem haver questão de olhares

Vestido de noiva


Vestido de noiva

Olhar para sua figura,
toda em nupciais dada,

que mais parece nuvem
todo esse ar que exala,

faz com a gente sinta
um desejo de abraça-la.

Porém mais que abraço
é o enlaço que se busca

laço que todo o pano
trará ao que se debruça

a ânsia de possui-la toda,
faze-la fêmea agora sua

trazer após a cerimônia

os olhares de convite


desfazer-se do pudor
e dos desejos embutidos

olhá-la agora como esposa,

ver-se a si como marido

para depois de desalinhar
num primeiro ato de assédio

aquela que te esperava
nos degraus do magno prédio.

E depois acha-la mais bela
que toda a roupa que usava,

acha-la mais confortável
assim mesmo sem nada...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Construção cabralina


Construção cabralina

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Quis escrever-te como
mão alheia que te pinta;
Sem ser meu no entanto,
mas cópia feita em vida

Quis desenhar-te casa
na qual se habita
sob teto de encomenda
tal palavra assim escrita

Fazer da geometria alheia
o metro que não possuo
As medidas inconcebidas
insonhadas num futuro

que tal desenho hodierno,
se faz olhando as coisas
não sentindo-as, vendo-as
traz à mente imagens moças.

II
Esse desenho inconstruto
não é algo que digo meu,
faço-o, tal qual decalque
duma lira muda de Orpheu

Estéril de intelecto altivo
das emoções palpitadas,
são apenas pulso hipnótico
duma imagem comparada...

Tal pulso a pulsar, o pulso
destas formas cerebrais
dá-me a ver o meu carma:
Aquilo que em mim há...

Não sou tão áurea, poeta
por isso tento te construir
n'algo que me projeto
a mim mesma a seguir...

Uma escrita construta,
mas tão alheia e árdua
que só me resta entender
o metro de tua estátua

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amor de vísceras


Amor de vísceras,
não de alma
o amor demasiado...
Amor real, ao quanto
se pode ter com
todos os sentidos
e especulações
Amor de carne e osso
com pulmões, vértebras
e braços...
Amor com fronteiras
sem pulos ou voos
Amor mais real
que todas as declarações
de amores que se tem...
Amor com limites,
com ânsias e com raivas,
Amor às vezes sólido
sem mais nem menos...
Amor às vezes pobre
como uma mesa
e duas cadeiras
Mas enfim,
amor de homem
com uma mulher
Não de dois anjos
ou semi-deuses
mas amor real
de carne e osso...
com glândulas, hormônios
e sêmen... amor
que é a vida em si ocorrendo
antes de toda a metafísica

Pra que metáforas?
amemo-nos assim mesmo,
como sempre foi...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Viva Santa Bárbara!

Caia na calçada
como a tarde caia
nos espelhos dos edifícios.
O homem caia na calçada
calcando os pés
para um abismo raso
bem próximo da morte
Caia na calçada
como um pingente
que se perdia
e rolava por água abaixo.
Todos os sonhos por terra;
todas as horar ardendo
como açoites nas costas dos negros;
e as esperanças, desejos, canduras?
Passaram de repente
como uma promessa esquecida...
- Como um final triste de novela.
Caia na calçada
o jesto, a dança, a ginga, o teatro
( Se é que se podem dar nomes! )
Caia na calçada
não os esforços de um homem,
mas uma comédia humana
representada por aqueles
que viram, ouviram e sentiram
sua queda do alto, das nuvens...
outros disseram que foi do álcool.
Caía na calçada
sem eira nem beira
como um trapo velho
que se joga fora
ou como a prostituta apaixonada
que possuimos pra ter asco
depois de uma noite da amor.
Caia na calçada
o choro de uma mãe,
a velhice de um pai,
a esperança de um filho...
Caia na calçada
( agora cheia da gente )
uma última réstia
do sol na cidade,
E tudo parecia tão mágico!
Veio uma chuva:
depois a noite
com seu quê de luxúria;
depois mais nada...
Os cacos no chão
pareciam gritar, exclamar
e os homens, esses seres inúteis,
pareciam apenas olhar.
Era tarde demais
a promessa que caia na calçada
agora não se levanta mais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempestade

Queria encontrar-te hoje
abraçar-te em meus braços
Ninar-te como meu menino
quando tens medo de ficar só
Queria ter-te comigo
agora que a noite é sombria
e que o vento me sacode
e me traz tua lembrança
Queria estar aos teus pés
venerando-te como a um deus
ao qual fantasiamos nas nossas
carícias sagradas...
Queria dizer-te o que te repito sempre:
Que te amo, te adoro e te quero.
Mas ao mesmo tempo
sinto essa distância como um carinho
que faz com que nossas mentes se encontrem
e juntas se entreguem ao gozo
que nossos corpos sentem em ter um ao outro

Ai, é noite de tempestade, querido
a chuva está tão forte... o vento tão frio
e eu aqui a pensar em ti...