terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Deseño


Quixera escribir o teu nome,
con todas as letras, obxectos e emocións.
Tamén con todas as imaxes
que teño de ti ...
para que te fagas máis real dentro de min.

Quixera ter o teu nome en tatuaxe
escrita coa tinta do noso corpo
(O teu fratasado lento e sutil a trazar os
significados e as medidas perfectas)

Quixera máis, quixera ter-te escrita,
doce amada dos infinitos soños meus,
nas miñas entrañas, vértebras e vísceras,
como un deseño vivo, orgánico ... ás veces triste!

Que son as nosas emocións, senón trazos
dun artista na súa máis complexa creación?
Un xenio débil a buscar a súa propia imaxe,
un tolo insano, unha comedia que escribimos
unha vida que se revisa todos os días?

Onde está ese tan grande segredo
a ser enontrado? Atopa-lo-ei nas túas grazas.
nos teus bicos, o sexo que practicamos?
Onde a pintura seca, onde verso fica
en fin, onde todo para, pararemos nós

a deseñar-nos un ao outro ...
coas nosas bocas ea nosa lingua.
(Aquela que falamos)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Já falou com Deus hoje?


Intimidade é um conceito que reporta ao nosso universo privado, àquilo que nós somos e que queremos ser quando estamos diante de nós mesmos. É como se cada um se olhasse diante de um espelho e dissesse: “Este sou eu”. Entretanto quando é preciso que saiamos desse espaço, tal qual a pessoa que se olha no espelho que, ao sair, precisa maquiar-se, necessitamos ocultar muito desse aspecto nosso, ou seja, somos, em parte, outra pessoa diante do público. Mas há pessoas que convivem ao nosso redor que, por conquistar-nos de alguma maneira, passam a fazer influencia em nós e na nossa vida, em maior ou menor grau. Algumas delas nos são tão prezadas que não temos medo de sermos nós mesmos diante delas, de compartilhar nossa intimidade. A elas nós chamamos de amigos, parentes, etc. São pessoas com as quais construímos laços afetivos sólidos, porque, de certa maneira, elas interferem positivamente na nossa existência. Mas o que dizer em relação ao nosso Deus? Existe alguém que nos conheça tanto quanto Ele? De fato, não, mas por que Ele passa tão despercebido? Talvez porque nunca tenhamos tentado construir com Ele um laço mais forte.

Olhando para o parágrafo acima, é possível ver nas entrelinhas uma sutil pergunta: Deus nos conhece, nos compreende, nos quer bem, nos ama, mas e nós? Será que nós o conhecemos ou só sabemos que Ele é o Criador e que, se fizermos o bem, vamos ao Céu, se não, ao Inferno? Deus se resume a isso? Claro que não. Na verdade é difícil conceituar ao Senhor, ele é e só. Mas um dos seus maiores atributos, sem dúvida alguma, é o amor. Como está escrito em várias passagens da Bíblia:“Amarás ao teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento”. Ora, por que, ao invés de colocar “Obedecerás” Ele colocou “Amarás? Porque ele quer construir algo mais duradouro, mais agradável. Ele não quer ser o patrão, não, de forma alguma, ele quer ser o amigo. Porém nós sabemos as nossas limitações, quem conhece a um amigo sabe o que ele gosta ou deixa de gostar, e tentamos respeitar isso nele se queremos que a amizade dure. Por exemplo, se alguém a quem nós prezamos muito não gostaria que fumemos, pelo menos, diante dele, nós não o faremos, isso é respeito. Com o Senhor sucede a mesma coisa, quem segue os Mandamentos Dele, os segue porque quer estar sempre próximo do seu Amigo, assim com ele quer estar junto daquele que O ama. Jesus Cristo falou nas Santas Escrituras: “Em verdade eu os chamarei agora de amigos, porque um servo não sabe o que faz o seu Senhor”. Entende, não só o Senhor nos conhece, mas quer compartilhar Dele mesmo para conosco. E como conhecer melhor ao nosso Deus do que conversando com Ele? Isso se chama oração.

Há uma música de Renato Russo que diz: “Fecha a porta do seu quarto e vê se toca o telefone. Pode ser alguém com quem você quer falar por horas, por horas e horas”. Isso não parece com uma parte da Bíblia que diz: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora ao teu Pai que está em oculto (..)”? É porque quando queremos compartilhar de um segredo com alguém, alguém a quem confiamos muito mesmo, necessitamos de privacidade para nos abrir com ele. Mais uma vez fica claro, Deus quer ser teu amigo, teu confidente, ele compreende tudo e sabe como te ajudar. Será que ele não é digno de tua confiança? Na sua palavra ele fala: “Façam prova de mim, e verão o quanto eu sou bom”. Traduzindo: faça o teste. Por que não tentar construir algo com Ele? Deus ama àquilo que cria, por isso ele nos quer como nós somos, “Vinham a mim como estão que eu os aliviarei”. Não tenha medo de se abrir ao teu amigo, vá lá, Ele está esperando por você. Então você vai descobrir o quanto é bom compartilhar da sua intimidade para com Aquele que o criou, e não vai ter medo de se sentir estranho, de ser você sem espelhos ou maquiagens, mas vai se alegrar por ter um amigo tão próximo e constante. E ai? Já falou com Deus hoje?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sabor e Arte


Sabor e arte

Tua beleza não é como
a das outras, é culinária,
que, mais do que para ser vista,
foi feita para saboreá-la

com todos os sabores, artes,
que da leveza de teu corpo,
foram feitos com maestria
pra servi-lo quente, não morno.

Entretanto, em ti, o fogo
é mais interno do que externo,
começa a esquentar no íntimo
e onde o fogo é mais aceso.

E também onde o excesso
atinge seus picos e cumes,
é lá que essa culinária
dá ao sabor o teu perfume.

Daí dizer que, em teu corpo
existe um prato cheio ao homem,
porque só em ti encontramos
o mesmo gosto de quem come.

Não se parece com a fome,
são ganas de sabor e arte,
de ter-te despida na cama,
de possuir-te, saborear-te

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Barreiras


Barreiras

Ninguém pode conter a dor,
por mais que doa ser assim.
A dor, quando vem, destroça
separa, fere, dói, enfim...

A dor está no homem grande,
está criança que cresce
Está na mãe que amamenta
as ilusões de seu feto...

Chorar não é vergonha, então
desde que seja humano...
As coisas que existem cá
são os nomes que lhe damos

e existem tantos nomes

Como é lágrima em francês?

Cláudia


Foi como um delírio
mas foi mais real que
todas as expectativas

Foi como uma dor
mas que doeu muito
e ficou marcado aqui

Foi como um léxico
o qual damos o nome
que queremos (temos)

mas que não pronunciamos.
Tal qual tantas palavras
no diccionário...

Por isso, é melhor calar
pra não dizermos as palavras
que não querias ouvir

Cláudia!

A cor negra

Por mais que disfarcemos as angústias
jamais deixaremos de expor o que sentimos
ou o que somos, ou que queremos
(E o que poderíamos ter sido)
Por isso a vida é uma constante incógnita
não importa o que façamos
ela há-de ser sempre
uma mancha a remover
no branco da pele... da alma
de tudo que nos for claro
(Orgulho)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O muro e a guerra


(Pessoas)


MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA
GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO
MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA MURO GUERRA

(Pessoas)
O que separa os olhos
e desfaz a alma

OS SERTÕES (DORMENTES)


OS SERTÕES (DORMENTES)


LAVRA
DOR
MENTES
SER
TÃO

DORMENTES

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A flor mais feia


A flor mais feia

Que dirias se
ao invés de rosas
flores feias te dessem?
Daquelas que
não tem forma, olfato
e nem mesmo pétalas
das quais se diga?

Ora, dirias que
não são rosas
mas flores feias
das quais olhas
mas não atentas
por não cheirarem
nem terem forma
e serem feias.

Dirías da rosa mil pendores
Louvarias a harmonia
de seus traços;
a fragilidade com que
se entrega, o verso que
ela inspira e a beleza
com que a mesma
é a mais louvada das flores

e se te lembrares
daquela flor mais feia
seria só pra fazer dela a menos
Porque a flor mais feia
não se colhe: se arranca;
não se rega: se mata;
nem se adjetiva: despreza-se!

Mas outrem diria-te
que, na verdade,
a flor mais feia é bela.
E mais, diria que é
a mais bela
por ser a mais feia
pois sendo feia
ainda assim é uma flor.

Quem sabe se
ao receberes flores feias
recebas o belo
de estar resistindo.
De seres a única
que no meio de tantas outra flores
tenhas o direito de dizer
que, apesar de seres

a mais indigna
de todas as flores
és digna o suficiente
para adornar o jardim oculto
da natureza -
como o faz a flor mais feia
que sem forma, odores
e pétalas fura o tempo

o medo, a mágoa
e o desprezo
impondo à beleza
sua fealdade de flor
contra o orgulho
e o preconceito
e arrogância
e, por fim, a morte

Porque a flor mais feia
marca como uma ferida
cuja cicatriz permanece
pra sempre!!

Casas


Casas

Ladeando nossas estradas
existem certos cubículos
feitos de suor e concreto
nos quais os homens crescidos

sentem-se novamente feto.

Todo o conforto de útero:
calor de ventre materno,
tem neles imagem perfeita
obra-prima industrial, externa

útero artificial, sem sexo...

E se são de novo rebentos,
são de uma mãe quotidiana
mãe que sempre estando prenha
tem seu constante parto diário.

Inreprodutivo e assexuado.

Mas como reaver a antiga
morada? Reencontrar assim
de soslaio o ventre perdido,
a casa da mãe onde tinha

atenção de único filho?

Poder-se-á reconstruir tal
cubículo singular, medido
em sua forma aritmética
com todos os traços nativos

onde amalgamados todos
comunguem de uma mesma mulher?
E onde o homem se sinta
criança, dona de um reino

que venha a ser só seu?

Onde o útero o acolha
por ser frágil seu ser?


Cultura



O girino é o peixinho do sapo.

O silêncio é o começo do papo.



O bigode é a antena do gato.

O cavalo é o pasto do carrapato.



O cabrito é o cordeiro da cabra.

O pescoço é a barriga da cobra.



O leitão é um porquinho mais novo.

A galinha é um pouquinho do ovo.



O desejo é o começo do corpo.

Engordar é tarefa do porco.



A cegonha é a girafa do ganso.

O cachorro é um lobo mais manso.



O escuro é a metade da zebra.

As raízes são as veias da seiva.



O camelo é um cavalo sem sede.

Tartaruga por dentro é parede.



O potrinho é o bezerro da égua.

A batalha é o começo da trégua.



Papagaio é um dragão miniatura.

Bactéria num meio é cultura.

ARNALDO ANTUNES

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Painel


Painel

Certas dores são sós
assim coma certas angústias
que aprisionam a alma da gente,
mas que no entanto,
fertilizam, se enraizam, crescem
tal qual o tamanho de nossa solidão
e o desejo que temos de fugir/resistir
a tudo que nos cerca e aborrece.

Certas dores também são sós:
uma lembrança; um reflexo,
um ente querido, um elo perdido,
as emoções infinitas no peito:
tão plurais dentro de um único tórax,
mas que doem como um todo.

E são também sós os olhares,
principalmente cada um separadamente.
Todas as combinações fotogâmicas,
todos os prótons e elétrons estatitizados
e todas as angústias dos homens
gravadas para sempre numa fotografia
na parede empoeirada de uma sala de estar.

Todas estas coisas
com todos seus marasmos
e solidões pulsantes... enfim
tudo isto, seja o que for,
acabam aparecendo um todo complexo
o qual tentamos ignorar
sem saber porquê...
Mas que ao reamontoar todas as peças
nos damos conta/ percebemos que
só e únicamente, carregamos uma realidade só!

Por que?


Por que?

Por que rompeste o encanto;
esvaziaste nosso armários
e guarda-roupas, livros caros
cheios de poeira e pranto?

Por que me alegraste tanto
se sabias que ta adorava
de um querer e paixão rara
- de um fervor de dar espanto?

Por que abandonaste a mim?
Por que aceleraste o fim
e fizeste do amor mágoa?

Por que não voltas e me abraças
e, juntos, limparemos a casa
de toda tristeza, dor e mágoa?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poema de natal


Poema de natal

Que hoje essa criaça nasça.
E que, nascendo, germine.
Que germinando, venha a brotar
e que, brotando, brilhe...

Brilhando, ilumine as incertezas.
Mas de um brilho que não fira...
Mesmo que muitas verdades firam,
essa verdade nos ilumina...

E é mais real que tudo que brota,
é mais substancial que todas as dores..
e se sente em tudo e em todos...
Basta que a criança nasça

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A dança da bailarina


A dança da bailarina

Um palco vazio...
Um verso sem música
um afago negado:
as emoções sem laço
(Entra a bailarina)
Dançando
a música ocorre
em suas pernas
feitas de poesia
e arte...
(Ela gira)
Seu voo parece real,
e em verdade
ela esta voando...
o show não pode parar...
(No chão)
Não foi queda
foi retração
da fênix incendiada
que vai arder em seguida

enquanto o sonho não parar

Pelos trilhos


Pelos trilhos

Ando a caminhar
por vários caminhos
afinal de contas
sou mulher
e quero um destino.
Um destino, por exemplo,
o de cortar as distâncias
e deixar para trás
aquilo que voltarei
a visitar.
Ter saudade do que tive
dos caminhos, das estradas,
das paixões e emoções
que eu hei de encontrar
ou que talvez eu crie
só por gostar...
Andar por cima dos trilhos,
em uma direção inexata
sem ponto de chegada...
Andar porque quero um destino
que não seja projetado
- uma flor silvestre
nasce ao acaso e é bela -
Por outro lado
não ando a andar sem chão,
o trilho, mesmo sem fim
me dá uma direção...
da qual não sairei
pra não cair...
Sigo andando
porque é longa a viagem,
mesmo sendo curta,
mesmo que termine agora.
Sigo andando porque,
andando, tenho certeza
de que sou o que sou
e que posso amar
e posso gostar de amar!
Enfim, andando na linha...
mesmo que seja a corda bamba,
ainda assim é uma linha:
bela porque é o limite.
E sigo andando
pelas estradas da vida.
Que quiser me seguir
seja bem-vindo!

Onde estão os diabinhos?


Onde estão os diabinhos?

Que vontade é essa
que me dá quando foges?
Que me dá quando o verso
não quer fluir ou cantar?
Que desejo é esse
que nos toma de repente
e nos enlouquece sempre,
faz sorrir faz chorar?

Quem é que me atiça,
cujo canto realiza
e me faz suplicar?
Quem é que me inspira, enfeitiça,
faz arder a chama
essa vontade louca que há?

É o verso, é a prosa,
é a música ou devoção?
Ou é efeito de drogas,
de bebidas ou algum vício
sem catalogação?
Afinal todos temos um.

O que é então tudo isso
que escrevo sem dar por mim?
É de Deus, é do capeta...
ou são devaneios da Sophya
que quer apenas ser lida
compreendida ou nada disso?

Quem tiver a resposta,
por favor me comunique.

Milagre no sertão


Milagre no sertão

Milagre!
Acudam todos...
lá na penha do rosário,
onde nem jurema ou catingueira
tem vaga na terra diária,
aconteceu de nescer enxerida
uma fulô no meio da pedra vaga!


As nuvens

As nuvens parecem algodão
quando desenhadas a planar,
tal qual riscos no papel crepom:
ou até doce de algodão...

As nuvens desenhadas frágeis
parecem com sonho de criança
erguendo-se tecido aéreo
que levemente se levanta

mas que são apenas vapor
de água que sobe por si só.
Mas que a criança os desenha,
faz do vapor nuvem de algodão

Porque o belo no que existe
é desenhar a vida em volta...
mesmo que tudo seja água,
o sonho sobe gota a gota.

E pode ser forte e pode ser frágil

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Fogo, palha e lenha


Fogo, palha e lenha (II)

Lá onde o sereno molha
e onde é verso o silêncio
das estradas e dos campos,
uma faísca surge num momento,
pedaço frágil de encanto.

Por sorte dela cai uma folha
que ao tocá-la logo entesa
a chama fulgaz primitiva
poema feito na natureza,
poema em chama viva.

Por mais sorte ainda, a folha,
incendiada, cai por cima da palha
e em seu âmago seco explosivo.
Que logo que se vê provocada
desata-se em calor radiativo.

Calor esse que agora
a simples faísca presencia
que nem se lembra de sua origem
pingo apenas de energia
potencial, só de vertigem.

Mas essa chama quente toda
foi tão fulgaz quanto arrasadora,
Extinguiu-se num só encanto
sob sua fúria assoladora
mas que, no entanto

esqueceu-se de olhar em volta,
ao um pedaço de lenha encostado
que apenas presenciou toda a cena,
mas que findo agora o espetáculo
quer o fogo não extinguir seu poema.

A lenha não entra fácil na roda.
Nela a combustão é mais preciosa,
coisa que o fogo em seu desejo
tem que lutar de muitas formas,
e não com a força do lampejo.

Mas a lenha, mesmo rígida toda,
é tão fêmea quanto a palha extinta.
Nela, se não há leviandade,
a ardencia também a atiça,
e seu discurso em liberdade.

E num momento os nervuras,
o gestos contidos em prosa lenta,
se renderão ao discurso que arde
nas portas de seus alentos...
E o fogo fará com sua arte

de arder a si mesmo e a todos
que os desejos se possuam,
se penetrem corpo a corpo

Coração de pedra


Coração de pedra

Tens um coração de pedra,
pedra tal qual a sua textura,

pétreo que por ser conciso
pode moldar-se, mas não muda

essa natureza que te faz
de todas as formas única:

natureza que só em teus gestos
existe feminina à tua altura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poema das espessuras


Poema das espessuras

Espesso
Espesso porque um poema é espesso
Espesso porque ao escreve-lo
o poeta se sente espesso,
Espesso também
porque tudo ao redor é espesso.
Espesso porque é espessa a vida
e o sentimento que em roda há.
É espesso porque também
é espesso o intragável:
é espesso porque a fome é intragável
porque a miséria é intragável,
porque o mundo gira e é intragável.
É espesso porque a lama é espessa
e fertiliza a miséria de todos os mocambos.
É espessa porque também é espesso o sangue
que derramamos todo dia quotidianamente...
Espesso porque suamos frio,
é espesso porque o suor fede
e fedem os cães e fedem as fezes
e fede tudo que é espesso...
É espesso porque este poema fede
e não sabemos a causa de sua morte.
Mas a morte também é espessa,
com sua carroça a cortar o tempo,
e a ceifar-nos sem medida, irmanamente.
É espesso porque o tempo não pára e é espesso
com seus segundos nos matando...
É espesso porque também todas as alegrias são espessas
e nos unem num momento de comunhão divina.
É espesso porque o divino é inalcançável
e o inalcançável é espesso.
Ah, mas é espesso porque o próprio homem é espesso,
porque o homem precisa de uma mulher
e porque a mulher é um ser espesso...
e também porque toda forma de amor é espessa,
ligada, viscosa como uma grande mucosa espessa.
É espesso porque o coração é espesso
e porque o coração está na mente
e tudo que pensamos é espesso.
Tão regurgitável como um vômito espesso
que lança fora nossas paixões-entranhas,
é o mundo grande a rodearnos sempre
com seus tentáculos ditos humanidade
e com seu cheiro de morfo espesso.
É finalmente, é espesso porque estamos no mundo,
e o mundo está no sistema,
e o sistema numa galáxia,
e a galáxia está no universo
e o universo é espesso!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estou a seguir-te


Estou a seguir-te.
Por que tu foges?
Se tu bem sabes
que a seguir-te
hei de ficar
por muito tempo.

Estou a seguir-te.
E tu não paras
nem pra trás olhas.
Me deixas cá
confundida, aturdida
sem me notar.

Estou a seguir-te
por que não notas?
Por que não voltas?
E me fazes feliz
como eu sempre quis...
como antigamente
que dizias de mim:
"Estou a seguir-te"

Estou a seguir-te.
Pisando o chão
onde tu pisaste;
Chorando a lágrima
que provocaste
Desvanecendo
por causa de amor.

Ai, solidão,
por que me acompanhas?
E me segues assim?
Deixa-me seguir
àquele que eu quero.
Seguir até me cansar.
Até por fim expirar
desse paixão doentia
que não quer passar...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


A barata

Franz não parecia acreditar
quer fosse mágico ou real
que a dor dos homens começa
quando a falsidade da áura
se camufla friamente
na dor sentida de um inseto
que tenta ser homem sem sê-lo
que tenta provar o que não pode...
que tenta voltar a ser
aquilo que não tem certeza
se realmente o foi...

O relógio


O relógio

A primeira coisa que lembro
é que nasci contando...
Coisa que fosse magnética
metal por dentro soando...

Coisa que fosse só coisa
uma peça, utensílio doméstico,
mas que era sempre observado
por operários e médicos...

Coisa ou metal coisificado,
lembro que uma essência tinha
a qual todos se juntavam a ver.
Não sei se a mostra ou escondida.

e sei que andava por pulsos,
outros vi pregados em paredes
outros adornados e vaidosos
E alguns amarrados em correntes.

Nunca soube pra que servia,
só sabia que algo em mim pulsava,
como um coração, mecanizado
que de vez em quando parava...

Foi nessas vezes que, parando,
me descobri lexicado máquina
pois que paralisado o meu pulsar
trocava-se uma peça e mais nada.

E o que era que havia em mim
que todos me olhavam de repente
e sempre, como que um deus?
Uma vez alguém disse: Tempo.

Pensei que tal era meu nome
porém outros diziam horas,
e outros só me apontavam,
para ver-me em pessoa...

Bem, eu era coisa, eu sei,
mas não entendo até hoje
o que há em nós Relógios,
este cá que é meu nome,

que as pessoas nos olham tanto.
Será um magnetismo tal
que atrai olhares alheios,
ou uma característica sem par

Ou será algo relacionado ao pulsar
que tantas vezes escuto sempre
que acontece todos os dias,
é isso que todos chamam de tempo?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


Retratos falados

PRÓLOGO

O olhar pra ter sentido
é um jogar com a visão
onde o sujeito, por dentro,
descreve toda a armação

É um jogar com o que existe
real por fora, ocorre dentro,
mas que muda com a releitura
e continua igual ao mesmo tempo

Sendo como é: um jogar,
muitas vezes o real varia,
ou varia o que ocorre dentro,
mundo ideal que se assimila.

E a realidade assim dita
toma de empréstimo adereços
que a vestem para entrar
na rua de outro endereço

e como por caminhos novos
a perder-se, a vida real, fora,
passa a conduzir-se maleável
a permitir-se nova forma

Que é o real mais exato
que só ocorre quando impressiona;
quando a língua lhe dá molde
a máquina interna funciona

RETRATO A

Como descreve-la assim de lapso?
ou como dar-lhe forma fidedigna?
Ter que rebusca-la é difícil
quanto mais descrevo, menos aproxima

dar-lhe-ei entretanto
o desenho de seu jeito e essência.
É alta como uma palmeira alta
a impor longe sua presença

mas que tem nos olhos castanhos
o imponencia de um coqueiro,
mais vivo que o verde palmeirense,
pois são doces, frutos seus, caseiros

E tão qual seu comprimento, altura,
são seus cabelos a descer-lhe
pelas espáduas como a alisa-la
qual duas mãos a percorrer.

É também branca, caucasiana,
cor de luz como a aurora;
É branco também seu sorriso
aberto de fora a fora...

Vendo-a parece frágil, franzina,
nos gestos com que se cobre,
mas não se engane com a imagem
de menina que comove...

Ela é antes fera que presa,
tal como leoa uma dormindo
mas que quando incendiada
provoca espanto e alarido.

Espanto que nos espanta,
com louvor, deixe-se claro,
que só ela assim provoca
tamanha forma, feitio raro.

RETRATO B

É difícil lembrar de tudo.
Foi há muito, como sabe,
é como descrever em névoas
engana-se com facilidade.

O que mais me lembro é das mãos
que eram grandes, musculosas
como as mãos de um urso,
ou ursa, pois eram zelosas

Também me lembro da risada
que era forte como um rugido;
ele tinha a voz grave. é claro
devido ao tempo ja vivido.

e tinha bigodes também, brancos.
não sei se eram fartos ou ralos,
sei que os tinha e somente isso
e que morrera de algum infarto.

RETRATO C

Como não lembrar-se,ou
como esquecer facilmente
de quem deixou uma cicatriz
que inda está latente?

Vejo-o como se fosse hoje
e esta tal é a sua feitura:
tinha o rosto doentio
como é assim a angústia

e era pálido, albino como se diz,
olhando-o parecia de gelo
com os olhos vidrados em nós
olhos da cor do medo...

que, paralelos à sua tez,
ardiam como brasas fumegantes.
E como eram sem vida!
Porém como eram gritantes!

Talvez visto na rua
fosse um ente normal
que a vê-lo sentissemos pena
e que pudéssemos amar,

mas tal qual a onça faminta
cujo charme rodeia a presa
para depois despedaça-la
fica sua imagem retesa

associada ao nome trauma,
que se associa ao nome morte
e ao fenômeno tristeza,
o casamento de mais sorte.

Pois este nos seguirá sempre
não importa o quanto se viva
enquanto durar esse vazio
mais à sua memória se associa.

Retrato D

E sim, ela era estúpida
com cara de sonsa mesmo!
Não sabia fazer nada
e nem queria aprende-lo...

Gostava era de dormir
com aquela boca escancarada,
que mais parecia a de uma porca
que carecia de maçã para fecha-la.

E roncava, Deus, como roncava!
fazia ressoar toda a parede
como o barulho de um motor
oculto sob todo aquele

imenso corpo balofo e gordo.
E ainda era vaidosa, digo
que tinha seus caprichos.
Que educação teria tido?

Bem, não sei ao certo.
O que sei é que incomodava
e que não dava mais certo
e que com ela eu não ficava.

E só pra não dizer que
eu não a elogiei em nada:
ela tinha a letra bonita
de dondoca mal amada.

RETRATO E

Ele batia na gente...
ainda mais quando bebia.
Às vezes fazia umas coisas feias
que a gente não entendia.

Mas na época era só estranho,
hoje, eu não sei como chamar.
Quando eu lembro dos olhos claros
a daquela voz a me gritar

sobe como que uma angústia
um medo. Mas não um ódio.
De certa maneira eu gostava
quando ele me punha no colo.

Gostava do seu cabelo negro,
achava-o o mais alto do mundo
e ele era um pai amoroso
Ja a bebida é outro assunto

Só quando bebia mudava.
Agora não sei que imagem dar:
a de um pai alcólatra
ou a de um alcólatra pai.

RETRATO F

O meu filho era bom
rapaz direito trabalhador.
Só porque fumava um troço
a polícia veio e matou.

Não fazia confusão com ninguém,
bebia com os amigos na dele,
Magrinho que só você vendo
mas disposto que só ele...

Mataram por ruindade mesmo,
eu sei que ele não era errado,
só gostava de sair a noite
e ás vezes voltar embriagado

Ele fazia bicos, servicinhos
pra ajudar na sua casa
E ganhava muito dinheiro
mas sempre tudo gastava.

Agora ele se foi, ta ai a foto.
Ele era um filho muito bom,
mas isso não o trará de volta
só pra dentro do coração

EPÍLOGO

Assim como um mosaico
a juntar-se em várias partes,
os olhos que captam a imagem
escolhem o feitio a dar-lhe.

E assim na peças escolhidas
uma a uma um todo formam.
E o universo fora, real por dentro
o motor da vida impulsiona.

Motor esse a funcionar
mas que não é mecânico,
motor que palpita dentro
a máquina ser humano...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Olhares


Olhares

Cá me encontro, tu me vês
caída como um anjo caído
que machucas e não o vês
o deixas só e sem sentido
e assim de vais
pra nunca mais
sem nem meu pranto notares
apenas uma questão d'olhares

E cá eu fico, somente triste
sem saber o que eu te fiz
ou a razão por que partiste
e me deixaste tão infeliz
que só eu sei
o que passei.
Mas falta tu reparares
apenas uma questão de olhares

E por que te vais novamente?
E me deixas jazer esquecida
como um capacho somente
que te traz mal a mal dormida
e fica assim
e é o fim
De todas as esperanças a dares
as tuas questões de olhares...

Mas vai-te embora, parte
que a dor ja muito lateja
e ficar só me dará alarde
estejas tu onde estejas
há de ficar
o teu lembrar
que me dizia aos pares
amor é uma questão de olhares

Tu foste embora e eu fiquei
sem rumo ou caminho próprio
nem sei se te esquecerei
tua carne foi como ópio
algo vil
me destruiu
uma doença a sarares
sem haver questão de olhares

Vestido de noiva


Vestido de noiva

Olhar para sua figura,
toda em nupciais dada,

que mais parece nuvem
todo esse ar que exala,

faz com a gente sinta
um desejo de abraça-la.

Porém mais que abraço
é o enlaço que se busca

laço que todo o pano
trará ao que se debruça

a ânsia de possui-la toda,
faze-la fêmea agora sua

trazer após a cerimônia

os olhares de convite


desfazer-se do pudor
e dos desejos embutidos

olhá-la agora como esposa,

ver-se a si como marido

para depois de desalinhar
num primeiro ato de assédio

aquela que te esperava
nos degraus do magno prédio.

E depois acha-la mais bela
que toda a roupa que usava,

acha-la mais confortável
assim mesmo sem nada...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Construção cabralina


Construção cabralina

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Quis escrever-te como
mão alheia que te pinta;
Sem ser meu no entanto,
mas cópia feita em vida

Quis desenhar-te casa
na qual se habita
sob teto de encomenda
tal palavra assim escrita

Fazer da geometria alheia
o metro que não possuo
As medidas inconcebidas
insonhadas num futuro

que tal desenho hodierno,
se faz olhando as coisas
não sentindo-as, vendo-as
traz à mente imagens moças.

II
Esse desenho inconstruto
não é algo que digo meu,
faço-o, tal qual decalque
duma lira muda de Orpheu

Estéril de intelecto altivo
das emoções palpitadas,
são apenas pulso hipnótico
duma imagem comparada...

Tal pulso a pulsar, o pulso
destas formas cerebrais
dá-me a ver o meu carma:
Aquilo que em mim há...

Não sou tão áurea, poeta
por isso tento te construir
n'algo que me projeto
a mim mesma a seguir...

Uma escrita construta,
mas tão alheia e árdua
que só me resta entender
o metro de tua estátua

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amor de vísceras


Amor de vísceras,
não de alma
o amor demasiado...
Amor real, ao quanto
se pode ter com
todos os sentidos
e especulações
Amor de carne e osso
com pulmões, vértebras
e braços...
Amor com fronteiras
sem pulos ou voos
Amor mais real
que todas as declarações
de amores que se tem...
Amor com limites,
com ânsias e com raivas,
Amor às vezes sólido
sem mais nem menos...
Amor às vezes pobre
como uma mesa
e duas cadeiras
Mas enfim,
amor de homem
com uma mulher
Não de dois anjos
ou semi-deuses
mas amor real
de carne e osso...
com glândulas, hormônios
e sêmen... amor
que é a vida em si ocorrendo
antes de toda a metafísica

Pra que metáforas?
amemo-nos assim mesmo,
como sempre foi...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Viva Santa Bárbara!

Caia na calçada
como a tarde caia
nos espelhos dos edifícios.
O homem caia na calçada
calcando os pés
para um abismo raso
bem próximo da morte
Caia na calçada
como um pingente
que se perdia
e rolava por água abaixo.
Todos os sonhos por terra;
todas as horar ardendo
como açoites nas costas dos negros;
e as esperanças, desejos, canduras?
Passaram de repente
como uma promessa esquecida...
- Como um final triste de novela.
Caia na calçada
o jesto, a dança, a ginga, o teatro
( Se é que se podem dar nomes! )
Caia na calçada
não os esforços de um homem,
mas uma comédia humana
representada por aqueles
que viram, ouviram e sentiram
sua queda do alto, das nuvens...
outros disseram que foi do álcool.
Caía na calçada
sem eira nem beira
como um trapo velho
que se joga fora
ou como a prostituta apaixonada
que possuimos pra ter asco
depois de uma noite da amor.
Caia na calçada
o choro de uma mãe,
a velhice de um pai,
a esperança de um filho...
Caia na calçada
( agora cheia da gente )
uma última réstia
do sol na cidade,
E tudo parecia tão mágico!
Veio uma chuva:
depois a noite
com seu quê de luxúria;
depois mais nada...
Os cacos no chão
pareciam gritar, exclamar
e os homens, esses seres inúteis,
pareciam apenas olhar.
Era tarde demais
a promessa que caia na calçada
agora não se levanta mais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempestade

Queria encontrar-te hoje
abraçar-te em meus braços
Ninar-te como meu menino
quando tens medo de ficar só
Queria ter-te comigo
agora que a noite é sombria
e que o vento me sacode
e me traz tua lembrança
Queria estar aos teus pés
venerando-te como a um deus
ao qual fantasiamos nas nossas
carícias sagradas...
Queria dizer-te o que te repito sempre:
Que te amo, te adoro e te quero.
Mas ao mesmo tempo
sinto essa distância como um carinho
que faz com que nossas mentes se encontrem
e juntas se entreguem ao gozo
que nossos corpos sentem em ter um ao outro

Ai, é noite de tempestade, querido
a chuva está tão forte... o vento tão frio
e eu aqui a pensar em ti...