quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ontem e Hoje


Ainda ontem eu era o rapazola
que olhava pras nuvens a procurar
desenhos que se parecessem
com aquilo que desejasse.
Os olhos eram meigos,
a voz era tão cândida,
e mais parecia ser um anjo
que trazia esperança do novo,

Hoje meus olhos se cansaram
de olhar o céu tão distante.
O tempo passou e a vida
é tão A vida, que eu vi
que os desenhos das nuvens
se configuram melhor
quando no desejo de realidade
os olhares se encontram
com a sutil sensação
da lembrança.

Balbuciando palavras

Santa Maria das rochas,
nudez muda, telepática,
mais te pareces Madalena
chorando aos pés de um
Cristo morto.

Santa Maria de boa ventura,
que das gozo àqueles que
consternados te procuram
mais te pareces Sant’Ana
balbuciando palavras.

Santa Maria dos inválidos,
que tanto socorro não existe
em tanto. Que sem limites
te pareces ao Jó doente
a gritar.

Mas não te ofendas, minha Santa,
que prosternada ao chão
choro as lágrimas de sangue
que mais me pareço
a alguém doente d’amor.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Silêncio...


Silêncio...
possa ser que alguem nos ouça...
Silêncio...
Deixa apenas entre mim e tua boca
Silêncio...
suspiros e respirações tão roucas
Silêncio...
Deixa que te envolva como uma cobra
Silêncio...
deixa-me roçar-me sobre teu corpo
Silêncio...
Deixa-me afogar-me em meus gozos
Silêncio...
que entre nós o mistério se envolva
Silêncio...
que só a palpitação se ouça
Silêncio...
Quero deliciar-me em tuas coisas
Silêncio...
e mais em nada, mais nada...
Silêncio...
Possa ser que alguém nos ouça.
Silêncio...
que esta noite é perigosa
Silêncio...
que entre mim e tua boca
Silêncio...
esteja o nada que nos inquieta.
Silêncio...

Paixão em verde


Eu te escreveria em folhas verdes
tão belas poesias de verde sangue
Mais perto do que quero ter-te,
meu doce amado, tu a abraçar-me.

Eu te escreveria em tintas verdes
como a uma menina que atentamente
te desdobra no papel de escola
em fibras que são meu corpo...

Mas tão verde que possa folhear-te
o vento frio que sopra lá do norte
que realce os detalhes sepre
da minha pele, da raíz às folhas.

E tão certo que te escreveria alegre
como uma imagem em poesia verde,
minha doce bela há de nascer nas ramas
de minha  doce paixão em verde.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Esperando à janela

Vou te esperar à janela, querida...
se bem meu ser quisesse dar-se
a outros ares e a outras graças
que não as tuas, de mel, de favo...
Vou esperar-te por algum tempo.
Deixarei que a luz me envolva
como os abraços que tão ardentes
me desses nas nossas noites juntos,
o ar das manhãs solitárias ser-me-á
de consolo à tua monótona ausência
Mas vou te esperar, ainda que não muito.
Que pobre amor é aquele se desfaz em
múltiplos pedaços de solidão velada?
Acaso seria o apego uma fuga do dor nossa?
Seria esse meu querer tão bruto e incoerente
uma forma brusca de quebrar, de rejeitar?
Eu te espero, querida, ainda que por caso,
sei que não se pode sentir saudade pra sempre
de algo que tem seus próprios compassos...
Ai, coração, que é tão menino e tão dado...
acaso é de profissão que doas tanto assim?

Nem queiras entender
os espinhos do meu jardim.

Não sei

Não sei...
Talvez seja fase,
dois caminhos que se perdem
hão de encontrar-se mais tarde...
Não sei...
será desalinho,
um pouco de despudor sem classe
que faz com que sofras por mim
Não sei...
talvez é da idade
as coisas que mudam
podem desmoronar-se
Não sei...
Mas, enfim é isso,
um pouco de medo, um pouco de tédio
faz a gente parecer tonta
Não me leves à sério.
Não sei...
talvez é bobagem
e assim eu te escrevo
pra te dizer
um tanto sem jeito
que, na verdade
Não sei.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A flor

Flor...
Flor vestida de branco
em flor.
Flor que se desenha
anônima flor...
que se desdobra
em infinita cor
sobre o branco
A flor..
que tem em si
seu sabor
de nectar roubado
A flor...
com seus ares e versos
que assim
nos dão a ideia
de que a flor
vai surgir
vai brotar
vai nascer.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Espelho meu


Espelho, espelho meu…
há algum rosto
mais triste que o meu?
Por acaso olhaste
alguma lágrima
mais sincera que a minha?
Ou será que viste
se refletir em teu cristal
alguém que saiba
desfalecer de amores?
Espelho, espelho meu…
há algum canto
mais triste que o meu?
Algum choro que te lembre
as imagens que contem
a minha tristeza tanta?
O gelo do acaso
que me deixa insana?
Por acaso em teus olhos
se refletiria meu coração
para que eu veja
em quantos pedaços
se partiu?
Sentirias tu
o bafejar de meus lábios
que se encontram sós?
Espelho, espelho meu...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Estou indo


Estou indo, não sei se volto
que meu coração te busca
em outras imagens, meu bem.
Estou indo, mas pra mui longe
que o meu ser se esconde
nos muitos pedaços
deitados ao chão.
Estou indo, não sei pra onde
com o coração nas mãos
palpitando meu sangue.
Estou indo, não sei se espero
que tu me acompanhes
nesta minha pobre sina
Estou indo, e é porque quero
na minha solidão esquecer,
a falta que me fazes, meu bem.

Assim nasceu o samba


Não estavam adormecidos
os versos que nesta ciranda
cantaram a doce melodia
que fez adormecer a infanta.

Não se calou um momento
o som rouco rouco da guitarra
que pousada sob as palmeiras
fez companhia ao som da praia.

Também não se feriu o verso
que de tão triste nos dava pena
nem chorou chorou mãe Teresa
ainda que fosse tão doente.

O som era o som dos cantares
que ouvem longe longe na terra
que tinham seu gosto meio acre
um misto de suor e de canseira

que os cansados cantavam roucos
ainda assim pedindo balanço,
se não sabeis, meus caros senhores,
foi assim que nasceu o samba.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A árvore da clareira



Triste árvore, como te desenhas
solitária entre os lobos ferozes
que não te desejam, te ferem
com seus olhares em fúria algoz!

Se por acaso, árvore não fosses,
fosses ovelha, veado, ou cervo,
seria menos triste tua solidão
mesmo que a morte viesse a tua porta?

Árvore, se tão frágil e franzina
não te desenhasses no campo
poderia ser que te sentisses
algo que seja parecido a amada?

Se não tão solitária no frio
teus gestos não falassem
da dor que sentes por dentro
entregarias teu corpo às feras?

Que ângelus novus tu esperas
nesta solidão sem estrelas
sem sacis ou mães d’água
pra que venha a te consolar?

Talvez este poema, triste irmã,
seja aquele punhal que te escreve
o nome das pessoas que a teu casco
arranham nomes que te olvidam.

De que cor é a lágrima?


De que cor é a lágrima lágrima?
De que cor será se telepática?
De que cor é a lágrima lágrima
quando alguém quiser desenha-la?
De que cor far-se-há de quando
os versos se calarem,?

De que cor é a lágrima lágrima
para conter suas mil verdades?
De que pigmentação tingi-la
que não contra sua vontade?
De que cor, se é azul nos mares
que se desenha água salgada?

De que cor é a lágrima lágrima
se de tristeza é a sua morada?
De que cor ou expectativas
se de alegria é sua vontade?
Que se diz da lágrima lágrima
que seja mentira ou verdade?

Será a cor da lágrima lágrima
azul, como a água dos mares?
Cor de negro, como de luto?
Marrom quando rosas murcharem?
Como se dizer da lágrima lágrima
O tom de sua singularidade?

Infelizmente o céu estava nublado

Infelizmente o céu apresentava-se nublado. Até poderia ser que, ao ouvir a voz que estava ao outro lado do telefone, ele respirasse e tentasse se concentrar no espaço ao seu redor. Se o céu estivesse claro e o horizonte apresentasse a brancura florida de plena tarde, talvez ele até sorrisse, se permitisse prestar atenção na vida que corria, ainda que severina. Mas o céu estava nublado. Nada mais triste do que ver o horizonte mórbido de gelo e prata; o ar lúgubre de sonho e náusea... o desespero. O vazio freudiano que nos acompanha a tornar-se mais forte. Nada mais triste, ainda, se é o amor sinônimo de angústia e de feridas que muitas vezes se dão lentamente, e eu diria até que corrosivamente, como um processo de erosão das expectativas e a formação de sedimentos ruinosos que rebuscamos numa busca inglória do que foi glório. Assim, nos desesperos de nossa própria beleza, recriamos as nossas tristezas em imagens que nos consolassem. Se elas existirem, é claro... Mas infelizmente o céu estava nublado

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Gata vira lata

Gata vira lata

Sinto
por vez existo
dizendo isto,
Minto

Repito
sem demora
de quem chora
aflito.

meu ser chora
e se consola
no seu canto

que sem ser belo
pode ser singelo
e ter encanto.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Triste fotografia

Calada na escuridão de minhas horas
faço correr por mim a agonia do tempo.
Nem sei mais se em algum momento
meu ser sorriu, dançou, ou foi feliz.
Sei apenas que, sozinha na escuridão
tremenda agonia, horrenda face...
meu coração quis gritar de dor e desespero.

Vieram lágrimas ao rosto.

A acústica da parede do quarto reprimiu
com sua dureza imóvel as dores mais íntimas.
Silenciou num pequeno espaço de si mesma
a beleza de um poema triste que daria uma fotografia.

Fotografando-se a si mesma

até a pior das dores tem seu melhor poema

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Samba para Elisa

(Refrão)
Deixa que as palavras
se escrevam por si só;
deixa que meus versos
te envolvam, por favor.
Cantarei, meu amor, pra você,
te darei todo o céu, se quiser
Te amarei, com toda emoção,

01
Meu bem, não se demore,
não quero esperar
Há tanto tempo não te vejo
eu quero te amar
Se há amor no mundo
maior que o meu
Que surja algum milagre
eu quero ser seu

02
Meu amor, não perca tempo,
quero te abraçar
Com todos os meus gestos
quero te amostrar
Que o sonho pode ser maior
se você quiser sonhar

(Refrão)

03
Já são quase seis horas,
onde você ta?
Meu Deus, mas que demora
to a te aguardar.
Só pra poder dizer
o que eu quero fazer...

04
Quero te amar a noite inteira
até o dia amanhecer,
trarei versos e flores
o que você quiser,
Minha preta, minha musa...
Vem me amar!

                    (Refrão)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Minha casinha do campo

Minha casa, minha casa...
Pequenina, pequenina...
junto da ribeirinha...
que tem flores tão nascidas,
no caminho das águas.

Minha casa, minha casinha...
tão frágil e pobrezinha,
mas que guarda os meus passos
os meus passos de menina
lá na beira do caminho

Minha casa, que é mais casebre,
casinha que me viu nascer
onde eu dei meu primeiro alento
lá junto de suas paredes...
onde minha mão me pôs na rede

Casinha em que me criei,
Deixo-te agora com um adeus chorando,
deixo-te, enfim,
mesmo querendo tanto
guardar tuas lembranças em mim.

Deixo-te assim em ruínas,
desabando em mil feridas
no meu pobrezinho coração.
Mas, minha casinha, não te esqueças,
que é com saudade que parto

assim te deixo sonhando
em teus espaços vazios

cheios de sonhos.

O sorriso de Elisa


Há uma flor no sorriso de Elisa,
há uma flor em seu sorriso...
uma flor grande, muito grande
de natureza imprecisa.

Mas que nos impressiona
e nos faz ter certeza
de que essa flor singela
de que é o sorriso de Elisa

Fundo alegra para um canto triste


Às sombras das carvalheiras
deixo eu minha ode perdida,
quem sabe, se ressequidas,
as letras façam que me queiras.

Deito fora as ilusões perdidas,
sem importar se foram belas
à sombra das carvalheiras
deixo as letras esquecidas...

Mas não vos aflijais amigas,
não é de delor meu canto,
nem de ruína esta cantiga,

É triste, pero no entanto
demoliu ilusão antiga
pra que viesse outro encanto

A Ponte

A ponte

Poema que fosse um desenho
estendendo-se em sua estrutura
uma ponte que se escrevesse
pelas histórias que a cruzam,

novo caminho entre as águas
tal nova proposta à fundura,
o homem que se projetasse
de modo a atingir suas alturas.

E assim reabrisse os caminhos
nos quais habitava a tardança
que a saudade achasse o encontro
onde antes havia distância.