quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poema de natal


Poema de natal

Que hoje essa criaça nasça.
E que, nascendo, germine.
Que germinando, venha a brotar
e que, brotando, brilhe...

Brilhando, ilumine as incertezas.
Mas de um brilho que não fira...
Mesmo que muitas verdades firam,
essa verdade nos ilumina...

E é mais real que tudo que brota,
é mais substancial que todas as dores..
e se sente em tudo e em todos...
Basta que a criança nasça

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A dança da bailarina


A dança da bailarina

Um palco vazio...
Um verso sem música
um afago negado:
as emoções sem laço
(Entra a bailarina)
Dançando
a música ocorre
em suas pernas
feitas de poesia
e arte...
(Ela gira)
Seu voo parece real,
e em verdade
ela esta voando...
o show não pode parar...
(No chão)
Não foi queda
foi retração
da fênix incendiada
que vai arder em seguida

enquanto o sonho não parar

Pelos trilhos


Pelos trilhos

Ando a caminhar
por vários caminhos
afinal de contas
sou mulher
e quero um destino.
Um destino, por exemplo,
o de cortar as distâncias
e deixar para trás
aquilo que voltarei
a visitar.
Ter saudade do que tive
dos caminhos, das estradas,
das paixões e emoções
que eu hei de encontrar
ou que talvez eu crie
só por gostar...
Andar por cima dos trilhos,
em uma direção inexata
sem ponto de chegada...
Andar porque quero um destino
que não seja projetado
- uma flor silvestre
nasce ao acaso e é bela -
Por outro lado
não ando a andar sem chão,
o trilho, mesmo sem fim
me dá uma direção...
da qual não sairei
pra não cair...
Sigo andando
porque é longa a viagem,
mesmo sendo curta,
mesmo que termine agora.
Sigo andando porque,
andando, tenho certeza
de que sou o que sou
e que posso amar
e posso gostar de amar!
Enfim, andando na linha...
mesmo que seja a corda bamba,
ainda assim é uma linha:
bela porque é o limite.
E sigo andando
pelas estradas da vida.
Que quiser me seguir
seja bem-vindo!

Onde estão os diabinhos?


Onde estão os diabinhos?

Que vontade é essa
que me dá quando foges?
Que me dá quando o verso
não quer fluir ou cantar?
Que desejo é esse
que nos toma de repente
e nos enlouquece sempre,
faz sorrir faz chorar?

Quem é que me atiça,
cujo canto realiza
e me faz suplicar?
Quem é que me inspira, enfeitiça,
faz arder a chama
essa vontade louca que há?

É o verso, é a prosa,
é a música ou devoção?
Ou é efeito de drogas,
de bebidas ou algum vício
sem catalogação?
Afinal todos temos um.

O que é então tudo isso
que escrevo sem dar por mim?
É de Deus, é do capeta...
ou são devaneios da Sophya
que quer apenas ser lida
compreendida ou nada disso?

Quem tiver a resposta,
por favor me comunique.

Milagre no sertão


Milagre no sertão

Milagre!
Acudam todos...
lá na penha do rosário,
onde nem jurema ou catingueira
tem vaga na terra diária,
aconteceu de nescer enxerida
uma fulô no meio da pedra vaga!


As nuvens

As nuvens parecem algodão
quando desenhadas a planar,
tal qual riscos no papel crepom:
ou até doce de algodão...

As nuvens desenhadas frágeis
parecem com sonho de criança
erguendo-se tecido aéreo
que levemente se levanta

mas que são apenas vapor
de água que sobe por si só.
Mas que a criança os desenha,
faz do vapor nuvem de algodão

Porque o belo no que existe
é desenhar a vida em volta...
mesmo que tudo seja água,
o sonho sobe gota a gota.

E pode ser forte e pode ser frágil

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Fogo, palha e lenha


Fogo, palha e lenha (II)

Lá onde o sereno molha
e onde é verso o silêncio
das estradas e dos campos,
uma faísca surge num momento,
pedaço frágil de encanto.

Por sorte dela cai uma folha
que ao tocá-la logo entesa
a chama fulgaz primitiva
poema feito na natureza,
poema em chama viva.

Por mais sorte ainda, a folha,
incendiada, cai por cima da palha
e em seu âmago seco explosivo.
Que logo que se vê provocada
desata-se em calor radiativo.

Calor esse que agora
a simples faísca presencia
que nem se lembra de sua origem
pingo apenas de energia
potencial, só de vertigem.

Mas essa chama quente toda
foi tão fulgaz quanto arrasadora,
Extinguiu-se num só encanto
sob sua fúria assoladora
mas que, no entanto

esqueceu-se de olhar em volta,
ao um pedaço de lenha encostado
que apenas presenciou toda a cena,
mas que findo agora o espetáculo
quer o fogo não extinguir seu poema.

A lenha não entra fácil na roda.
Nela a combustão é mais preciosa,
coisa que o fogo em seu desejo
tem que lutar de muitas formas,
e não com a força do lampejo.

Mas a lenha, mesmo rígida toda,
é tão fêmea quanto a palha extinta.
Nela, se não há leviandade,
a ardencia também a atiça,
e seu discurso em liberdade.

E num momento os nervuras,
o gestos contidos em prosa lenta,
se renderão ao discurso que arde
nas portas de seus alentos...
E o fogo fará com sua arte

de arder a si mesmo e a todos
que os desejos se possuam,
se penetrem corpo a corpo

Coração de pedra


Coração de pedra

Tens um coração de pedra,
pedra tal qual a sua textura,

pétreo que por ser conciso
pode moldar-se, mas não muda

essa natureza que te faz
de todas as formas única:

natureza que só em teus gestos
existe feminina à tua altura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poema das espessuras


Poema das espessuras

Espesso
Espesso porque um poema é espesso
Espesso porque ao escreve-lo
o poeta se sente espesso,
Espesso também
porque tudo ao redor é espesso.
Espesso porque é espessa a vida
e o sentimento que em roda há.
É espesso porque também
é espesso o intragável:
é espesso porque a fome é intragável
porque a miséria é intragável,
porque o mundo gira e é intragável.
É espesso porque a lama é espessa
e fertiliza a miséria de todos os mocambos.
É espessa porque também é espesso o sangue
que derramamos todo dia quotidianamente...
Espesso porque suamos frio,
é espesso porque o suor fede
e fedem os cães e fedem as fezes
e fede tudo que é espesso...
É espesso porque este poema fede
e não sabemos a causa de sua morte.
Mas a morte também é espessa,
com sua carroça a cortar o tempo,
e a ceifar-nos sem medida, irmanamente.
É espesso porque o tempo não pára e é espesso
com seus segundos nos matando...
É espesso porque também todas as alegrias são espessas
e nos unem num momento de comunhão divina.
É espesso porque o divino é inalcançável
e o inalcançável é espesso.
Ah, mas é espesso porque o próprio homem é espesso,
porque o homem precisa de uma mulher
e porque a mulher é um ser espesso...
e também porque toda forma de amor é espessa,
ligada, viscosa como uma grande mucosa espessa.
É espesso porque o coração é espesso
e porque o coração está na mente
e tudo que pensamos é espesso.
Tão regurgitável como um vômito espesso
que lança fora nossas paixões-entranhas,
é o mundo grande a rodearnos sempre
com seus tentáculos ditos humanidade
e com seu cheiro de morfo espesso.
É finalmente, é espesso porque estamos no mundo,
e o mundo está no sistema,
e o sistema numa galáxia,
e a galáxia está no universo
e o universo é espesso!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estou a seguir-te


Estou a seguir-te.
Por que tu foges?
Se tu bem sabes
que a seguir-te
hei de ficar
por muito tempo.

Estou a seguir-te.
E tu não paras
nem pra trás olhas.
Me deixas cá
confundida, aturdida
sem me notar.

Estou a seguir-te
por que não notas?
Por que não voltas?
E me fazes feliz
como eu sempre quis...
como antigamente
que dizias de mim:
"Estou a seguir-te"

Estou a seguir-te.
Pisando o chão
onde tu pisaste;
Chorando a lágrima
que provocaste
Desvanecendo
por causa de amor.

Ai, solidão,
por que me acompanhas?
E me segues assim?
Deixa-me seguir
àquele que eu quero.
Seguir até me cansar.
Até por fim expirar
desse paixão doentia
que não quer passar...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


A barata

Franz não parecia acreditar
quer fosse mágico ou real
que a dor dos homens começa
quando a falsidade da áura
se camufla friamente
na dor sentida de um inseto
que tenta ser homem sem sê-lo
que tenta provar o que não pode...
que tenta voltar a ser
aquilo que não tem certeza
se realmente o foi...

O relógio


O relógio

A primeira coisa que lembro
é que nasci contando...
Coisa que fosse magnética
metal por dentro soando...

Coisa que fosse só coisa
uma peça, utensílio doméstico,
mas que era sempre observado
por operários e médicos...

Coisa ou metal coisificado,
lembro que uma essência tinha
a qual todos se juntavam a ver.
Não sei se a mostra ou escondida.

e sei que andava por pulsos,
outros vi pregados em paredes
outros adornados e vaidosos
E alguns amarrados em correntes.

Nunca soube pra que servia,
só sabia que algo em mim pulsava,
como um coração, mecanizado
que de vez em quando parava...

Foi nessas vezes que, parando,
me descobri lexicado máquina
pois que paralisado o meu pulsar
trocava-se uma peça e mais nada.

E o que era que havia em mim
que todos me olhavam de repente
e sempre, como que um deus?
Uma vez alguém disse: Tempo.

Pensei que tal era meu nome
porém outros diziam horas,
e outros só me apontavam,
para ver-me em pessoa...

Bem, eu era coisa, eu sei,
mas não entendo até hoje
o que há em nós Relógios,
este cá que é meu nome,

que as pessoas nos olham tanto.
Será um magnetismo tal
que atrai olhares alheios,
ou uma característica sem par

Ou será algo relacionado ao pulsar
que tantas vezes escuto sempre
que acontece todos os dias,
é isso que todos chamam de tempo?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


Retratos falados

PRÓLOGO

O olhar pra ter sentido
é um jogar com a visão
onde o sujeito, por dentro,
descreve toda a armação

É um jogar com o que existe
real por fora, ocorre dentro,
mas que muda com a releitura
e continua igual ao mesmo tempo

Sendo como é: um jogar,
muitas vezes o real varia,
ou varia o que ocorre dentro,
mundo ideal que se assimila.

E a realidade assim dita
toma de empréstimo adereços
que a vestem para entrar
na rua de outro endereço

e como por caminhos novos
a perder-se, a vida real, fora,
passa a conduzir-se maleável
a permitir-se nova forma

Que é o real mais exato
que só ocorre quando impressiona;
quando a língua lhe dá molde
a máquina interna funciona

RETRATO A

Como descreve-la assim de lapso?
ou como dar-lhe forma fidedigna?
Ter que rebusca-la é difícil
quanto mais descrevo, menos aproxima

dar-lhe-ei entretanto
o desenho de seu jeito e essência.
É alta como uma palmeira alta
a impor longe sua presença

mas que tem nos olhos castanhos
o imponencia de um coqueiro,
mais vivo que o verde palmeirense,
pois são doces, frutos seus, caseiros

E tão qual seu comprimento, altura,
são seus cabelos a descer-lhe
pelas espáduas como a alisa-la
qual duas mãos a percorrer.

É também branca, caucasiana,
cor de luz como a aurora;
É branco também seu sorriso
aberto de fora a fora...

Vendo-a parece frágil, franzina,
nos gestos com que se cobre,
mas não se engane com a imagem
de menina que comove...

Ela é antes fera que presa,
tal como leoa uma dormindo
mas que quando incendiada
provoca espanto e alarido.

Espanto que nos espanta,
com louvor, deixe-se claro,
que só ela assim provoca
tamanha forma, feitio raro.

RETRATO B

É difícil lembrar de tudo.
Foi há muito, como sabe,
é como descrever em névoas
engana-se com facilidade.

O que mais me lembro é das mãos
que eram grandes, musculosas
como as mãos de um urso,
ou ursa, pois eram zelosas

Também me lembro da risada
que era forte como um rugido;
ele tinha a voz grave. é claro
devido ao tempo ja vivido.

e tinha bigodes também, brancos.
não sei se eram fartos ou ralos,
sei que os tinha e somente isso
e que morrera de algum infarto.

RETRATO C

Como não lembrar-se,ou
como esquecer facilmente
de quem deixou uma cicatriz
que inda está latente?

Vejo-o como se fosse hoje
e esta tal é a sua feitura:
tinha o rosto doentio
como é assim a angústia

e era pálido, albino como se diz,
olhando-o parecia de gelo
com os olhos vidrados em nós
olhos da cor do medo...

que, paralelos à sua tez,
ardiam como brasas fumegantes.
E como eram sem vida!
Porém como eram gritantes!

Talvez visto na rua
fosse um ente normal
que a vê-lo sentissemos pena
e que pudéssemos amar,

mas tal qual a onça faminta
cujo charme rodeia a presa
para depois despedaça-la
fica sua imagem retesa

associada ao nome trauma,
que se associa ao nome morte
e ao fenômeno tristeza,
o casamento de mais sorte.

Pois este nos seguirá sempre
não importa o quanto se viva
enquanto durar esse vazio
mais à sua memória se associa.

Retrato D

E sim, ela era estúpida
com cara de sonsa mesmo!
Não sabia fazer nada
e nem queria aprende-lo...

Gostava era de dormir
com aquela boca escancarada,
que mais parecia a de uma porca
que carecia de maçã para fecha-la.

E roncava, Deus, como roncava!
fazia ressoar toda a parede
como o barulho de um motor
oculto sob todo aquele

imenso corpo balofo e gordo.
E ainda era vaidosa, digo
que tinha seus caprichos.
Que educação teria tido?

Bem, não sei ao certo.
O que sei é que incomodava
e que não dava mais certo
e que com ela eu não ficava.

E só pra não dizer que
eu não a elogiei em nada:
ela tinha a letra bonita
de dondoca mal amada.

RETRATO E

Ele batia na gente...
ainda mais quando bebia.
Às vezes fazia umas coisas feias
que a gente não entendia.

Mas na época era só estranho,
hoje, eu não sei como chamar.
Quando eu lembro dos olhos claros
a daquela voz a me gritar

sobe como que uma angústia
um medo. Mas não um ódio.
De certa maneira eu gostava
quando ele me punha no colo.

Gostava do seu cabelo negro,
achava-o o mais alto do mundo
e ele era um pai amoroso
Ja a bebida é outro assunto

Só quando bebia mudava.
Agora não sei que imagem dar:
a de um pai alcólatra
ou a de um alcólatra pai.

RETRATO F

O meu filho era bom
rapaz direito trabalhador.
Só porque fumava um troço
a polícia veio e matou.

Não fazia confusão com ninguém,
bebia com os amigos na dele,
Magrinho que só você vendo
mas disposto que só ele...

Mataram por ruindade mesmo,
eu sei que ele não era errado,
só gostava de sair a noite
e ás vezes voltar embriagado

Ele fazia bicos, servicinhos
pra ajudar na sua casa
E ganhava muito dinheiro
mas sempre tudo gastava.

Agora ele se foi, ta ai a foto.
Ele era um filho muito bom,
mas isso não o trará de volta
só pra dentro do coração

EPÍLOGO

Assim como um mosaico
a juntar-se em várias partes,
os olhos que captam a imagem
escolhem o feitio a dar-lhe.

E assim na peças escolhidas
uma a uma um todo formam.
E o universo fora, real por dentro
o motor da vida impulsiona.

Motor esse a funcionar
mas que não é mecânico,
motor que palpita dentro
a máquina ser humano...