terça-feira, 15 de outubro de 2013

A vendedora de Frutas

Aquela moça na calçada
tem um belo de um sorriso,
que eu fico aqui indeciso
de cortejar ou não tal fada.

E ela tem assim um brilho
que irradia a todos pela rua,
e que perante a beleza sua
nada mais tem tanto brilho.

Eu posso vê-la todas as tardes
a vender frutas na cidade
e faço questão de comprar dela

só pra sentir em seus produtos
a pele suave de veludo
da vendedora Manuela. 

Alegria, alegria...

Nada como se disfarçar de sorrisos
quando eu vir as luzes e as cortinas.
Pelo menos tingindo-me de vaidade
posso ser importante e a platéia vibra.

Que eu me acabe em cambalhotas,
enfrente os leões com ousadia,
sempre que eu fizer palhaçadas
serei sim a maior atração do circo.

E sinto-me feliz, verdade...
de vestir-me de escárnio e de mentiras.
Ser para todos que me olham
o motivo de suas breves alegrias.

Afinal, é por isso que sou palhaço,

sábado, 12 de outubro de 2013

Luz e imagens

As imagens tem som.
As imagens tem cheiro.
As imagens em cor
trazem à memória
toda a plenitude do instante.

Um foco de luz em nossa retina
que se espalha pelos nervos
e que transmitem luz
e de luz em luz
a imagem cria existência
Como coisa em si,
que se transmite a nós.

Mesmo as trevas,
são luz dentro da imagem.
Mesmo cegueira,
cria luzes quando imaginamos.
Por isso sabemos que existimos

E que as coisas podem,
mesmo que ocultamente,
ter seu brilho...
se nos abrirmos à luz


que já está em nós.

Epitáfio de Ricardo Reis a Lídia

Epitáfio de Ricardo Reis a Lídia

Se eu ao menos os espinhos tivesse
da rosa que em mãos alegres tive,
não teria emaranhado nas faces
as cores cinzas de um sorriso.

Se ao menos o galho seco d'outrora
estivesse ao meu lado ainda,
mesmo que em suas raízes secas
eu não sentisse a antiga vida,

eu teria latente em tal imagem
a lembrança da poesia antiga.
De seu ritmo que balançava
o peito amante e destemido.

Se só a folha da palha que se vai
eu cá a tivesse ainda comigo,
se tão somente a sensação saudosa,
eu sei que eu ainda sorriria.

Nem que seja um pouco.

Nem que seja tão breve
o instante que alumia
a lembrança de tua passagem
pequena Lídia.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Detrás do sorriso


Um palhaço preso
não sorri, zomba
das piadas que
foram mal contadas.

Talvez porque
neste último gracejo
ele esconda 
a solidão de suas
lágrimas de risos.

Versinho


Olá, como vai você?
Tenho flores mil
e mil palavras de amor
incrustadas em mim.
Sou florista e em meu burgo
sou a mais bonita.
Mas meu coração
como uma rosa murchou-se
por falta de teu amor.

Quando voltei a ti portas adentro

Quando voltei a ti portas adentro
já estava eu velho e cansado
o semblante tombou ao descuidado
o sorriso foi-se ao sofrimento.

A porta rangeu e o ar pesado
de um tempo há muito que se foi,
de um tempo que em mim ainda doi,
a época de ouro do meu passado.

A casa, bem sei, já estava vazia,
com os móveis cheios de nostalgia
sem o colorido de meus pensamentos.

Na parede teu retrato já amarelo,
agora declarava teu adeus sincero
quando voltei a ti portas adentro.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Beijinho

Eu não quero um beijo, amor...
eu quero só um beijinho.
Aquele que é por si breve...
aquele que é só um instantinho.

Um beijo que seja só isso,
um estalo, só um biquinho...
que nem precise do abraço,
somente do teu carinho...

É isso que eu quero, "mor"
um instante assim, bem simples
em que os amantes se amem
só com o estar juntos, juntinhos..

num fim de tarde, o sol ao longe
projetando as nossas sombras
no beijinho que nos damos.

A caixa de Pandora

               
     Se Pandora não abrisse a caixa, talvez ela estivesse em segurança, porém não seria feliz. Quando uma dúvida se lança, logo vem a inquietação, o desejo das respostas. O mistério, motor imóvel que não precisa ter nada para movimentar, só precisa ser. E lá vamos nós... queremos nos adentrar em seus labirintos, quer que o que descubramos seja ruim, ou mesquinho, ou até mesmo idiota, mas se há o mistério há o desejo. O desejo de sermos plenos, porque não há maior medo do que o medo do desconhecido, do inimaginável. Com a chave na mão Pandora tinha duas opções, ou deixava se levar pelo desconhecido ou teria que encará-lo para aliviar sua própria curiosidade. Diz a lenda que ela hesitou, mas abriu... e após esse breve girar das engrenagens do cadeado todas as catástrofes humanas pairaram sobre a terra. Pandora pode ter chorado porque tudo aquilo poderia ser evitado. Poderia mesmo? Há algo que dome o intelecto humano pela busca do desconhecido? Pandora chorou, porém no final, em um canto empoeirado ela viu um pequeno ponto luminoso. Era a esperança... Perdida nas trevas do mistério, misturada aos maiores medos da humanidade, lá estava ela... tênue luz... a esperança que vence os medos. Com os monstros a solta, somente a esperança poderia resistir. Contra o mal, só a esperança. A luz da caixa misteriosa. Será que depois disso Pandora voltou a sorrir?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Principais aspectos da administração espanhola colonial.

Principais aspectos da administração espanhola.
            Logo após a conquista dos grandes impérios pré-colombianos por parte da Espanha, deu-se início a um processo de subjugo das sociedades indígenas que acabou por desmantelar a comunidade aldeã no seu modo primeiro e incorporou-a à dinâmica comercial europeia. No entanto, o predomínio de não quer dizer o desaparecimento da outra. Como bem frisa Ronaldo Vainfas, o processo de conquista se deu tanto por imposição, como por aculturação, e aculturação recíproca... Violenta, mas recíproca. Daí podermos afirmar que no processo de formação da máquina administrativa espanhola no Novo mundo houve dois momentos. O primeiro, que ocorreu entre 1494 e 1542, logo após a conquista, e que foi marcado pela conjunção de instituições ibéricas oriundas da reconquista, como a encomienda, com instituições de origem mesoamericana e andina, como a mita e o cuatéquil. Com o surgimento dês Leyes nuevas inaugura-se um novo período na administração hispânica, oriunda da necessidade de a Coroa controlar melhor os seus domínios e evitar usurpações. Caracteriza essa fase o declínio da encomienda que, com a formação dos vice-reinos, levou, consequentemente, a maturação de uma elite colonial burocrática.
            Antes de qualquer coisa, quem analisa o contexto do domínio do Novo mundo precisa ter nos olhos a lente de quem o conquistou. Perguntemo-nos que novos rumos essa conquista traçou, posto que vastos territórios oferecem inúmeras formas de administrá-lo e inúmeros problemas a ser solucionados – ou, pelo menos, amenizados. Comecemos, pois, por esboçar o seguinte painel. Quando Carlos V assume o trono do Sacro Império no ano de (), mandou grafar em seu brasão a frase Plus ultra – mais além -, incrustada entre as duas colunas de Hércules, afirmando seu desejo expansionista. Pois bem, a conquista da América trouxe essa possibilidade de uma maneira bastante real. Pela primeira vez na história surge um império transoceânico. Entretanto, como se sabe, esse Novo mundo não estava desabitado. Havia inúmeras populações que iam desde o estado tribal até sociedades altamente hierarquizadas e complexas, mas com uma semelhança entre si. O seu “American way life” de forma alguma era compatível aos moldes europeus. Era preciso civiliza-los. Incluí-los nesse mercado e modo de ser do Velho mundo, porque, acima de tudo, esses territórios serviam pra atender a necessidades comerciais de uma Europa que ansiava pelas tão cobiçadas especiarias, e por ouro e prata. Nesse contexto, a Espanha saiu privilegiada e, principalmente Castela, posto que a bula intercoetera, emitida em 1493 por Alexandre VI concede as terras descobertas, não ao rei da Espanha, mas aos Reis de Leão e Castela. Do ponto de vista institucional, essa medida determinou a reprodução de instituições aristocráticas baseadas no latifúndio, típico da política castelhana e que viriam a caracterizar boa parte da administração colonial.
            Sendo, pois, posse de Castela, os emigrantes d’outras províncias teriam limitações para ingressar. Para controlar esse fluxo de gente e, como também de mercadorias, foi criado em 1503 a primeira Casa de La contratación. Esse órgão era responsável pelo transito de coisas e mercadorias entre homens e mulheres entre Espanha e América e estava sediado em Sevilha. A sua criação advém da necessidade de centralizar a administração, controlar de forma eficiente o comércio, conservando-o em mãos nativas e mantendo longes elementos indesejáveis. Chamamos a essa medida de política do porto único (Ronaldo Vainfas É claro que os aventureiros e interessados nos negócios no Novo mundo sempre deram um jeito de burlar essas restrições. Com o tempo a crescente pressão comercial forçou o desenvolvimento institucional, sendo preciso a formação de um aparato burocrático mais formal. Em 1523 foi criado o Conselho das Índias que, como o nome já diz, tinha uma função conciliar. Isto é, era o espaço em que se combinavam os interesses plurais de cada sector interessado com os da Coroa, representando o estado unificado. É necessário que se note que, ao contrário dos demais conselhos peninsulares, esse conselho das Índias estava na práxis fora do contexto real da colônia, o que fazia com que muitas de suas deliberações não atendessem às reais demandas dos súbditos nos territórios ultramarinos. A consequência disso seria a criação de uma casta de burocratas que estavam preocupados mais em legitimar que inovar – e quando falamos em legitimar, dizemos em legitimar a si mesmos como membros de uma elite. No entanto, e verdade seja dita, é meio difícil pensarmos em uma inovação e criatividade burocrática quando nos deparamos com os inúmeros problemas que a Coroa se deparava, dentre eles, e um dos principais, estava a distância. Por isso, uma vez determinadas as diretrizes da máquina administrativa e estabelecida a sua estrutura, tendia-se a assegurar que se mantivesse uma rotina. E como o aparato estatal era muito centralizador, o melhor, para ambos os lados seria, ao invés de se rebelar contra ele, explorar as suas fragilidades, o que não era muito difícil, pelo que o tempo mostraria.
A disseminação d’autoridade baseava-se numa distribuição dos deveres entre os funcionários. No entanto era possível, e até frequente, que um mesmo funcionário detivesse vários tipos diferentes de função. Isso, com certeza, causou atritos, posto que uns tendessem a controlar os demais e opor a autoridade de um a outro. As primeiras figuras a representar a autoridade da Coroa em território americano foram os gobernadores, cargo geralmente ocupado pelos conquistadores. Figuras análogas aos donatários d’América portuguesa, a eles foi concebido o direito de dispor de terras e de índios.  É claro que nesse período, a encomienda teve um papel fundamental, visto que conferia àquele que a geria o direito de cobrar impostos sobre as populações indígenas. No entanto, não é preciso ser um hábil observador para perceber que tais prerrogativas, juntamente com o direito a exercer justiça nas áreas de sua jurisdição, conferiam grandes poderes a quem as detinha, o que não era bom para a Coroa. Na verdade, num momento inicial, a concessão de tais privilégios servia de atrativo àqueles que queriam obter fama e dinheiro. Porém, a sua perpetuação acabaria criando uma casta de “senhores feudais”. Sabendo disso, e como a mão que afaga é a mesma que apedreja, cuidou a Coroa de adapta-la de modo a torná-la mais inofensiva. Para isso procurou diminuir o poder dos conquistadores, lutando assiduamente pelo fim da encomienda e designando uma nova casta de gobernadores, não mais adelantados, mas administradores. De todas as formas mantiveram-se as prerrogativas administrativas, judiciais e militares, mas estas seriam de menor importância, posto que seriam delegadas a uma unidade administrativa de maior poder: o vice-reinado.
Criada quando da conquista por Colombo, deixada de lado após a morte de sua viúva, revivida em 1535 e legitimada pelas Leyes nuevas em 1542, essa unidade administrativa estava no topo da hierarquia das instituições criadas nas Índias. Delegado por parte dos Monarcas, o vice-rei era alter ego do rei e unia em sua pessoa os atributos de governador em capitão-mor, assim como também o cargo de presidente da audiência, considerado o principal representante judicial da coroa. É claro que tamanho prestígio e a possibilidade e lucro que podia ser auferida com ele despertou o interesse de famílias nobres, que viram no cargo a chance de consumar as suas ambições. De fato, aqueles que prosperavam em sua administração tornavam-se benquistos diante da Coroa e do Conselho das Índias, todavia muito frequentemente esses vice-reinados traziam desapontamentos e, ao contrário de enriquecer e enobrecer, empobreciam e traziam má fama. Na verdade muitas dessas decepções advinham da impossibilidade de seguir certas prerrogativas impostas aos vice-reis, como o de não casar-se com mulheres da colônia, nem estabelecer alianças com populações locais etc. No entanto, como se disse acima, muitas vezes as leis emitidas na metrópole não correspondiam à real situação das colônias. A formação de um aparato burocrático nos territórios ultramarinos formou também uma elite colonial, elite que fazia de tudo para consolidar sua posição, da mesma forma que os vice-reis mais ajuizados fariam. Mesmo sendo um alto cargo representativo, o vice-rei não deixava de ser um funcionário régio. Dentre suas várias funções burocráticas havia aquela que era fazer cumprir as leis que Madrid emitia, leis estas que serviam como um tratado geral dos desígnios da Coroa, coisa que era pra ser levada em conta. Uma dessas leis era a provisión, uma lei geral relativa às questões de justiça ou de governo e que comunicava uma decisão real ou do Conselho das Índias. Vinha assinada Yo El Rey e era emitida num documento chamado cédula real. Não constando de destinatário, mas corporificando as decisões do Conselho das Índias ou audiências estavam os autos. Um fato interessante a ser notado era o número de leis que eram expedidos pela Coroa – Diego de Encinas fez uma compilação de cerca de 3000 delas. E mais interessante ainda era o número delas que era repetido, o que denota o alto grau de descumprimento a elas. Malgrado isso, os vice-reis não podiam fazer vista grossa à sua existência, posto que os ouvidos dos oídores estavam atentos a quaisquer deslizes cometidos pelos mesmos. É claro que essa fiscalização era muito menos movida pelo zelo no cumprimento da lei do que pelas intrigas políticas das aristocracias que se formaram no lado de cá do Atlântico. Mas já que se citou tanto as audiências, falemos um pouco delas.

Empregando-se de cerca de noventa cargos ocupados por cerca de mil homens durante quase dois séculos de domínio Habsburg na Espanha, a audiência era o órgão responsável pela parte jurídica do vice-reinado, assegurando o adequado cumprimento das leis no Novo mundo. Apesar do seu papel de tribunal supremo, muitas vezes as audiências adquiriram outros atributos, exercendo a função de governo entre a partida de um vice-rei e a chegada de outro. Essa forte influência administrativa, tendo contacto direto com o Conselho das Índias, inclusive, deu a esse órgão um status ainda não visto em parte nenhuma do Império. Não seria de surpreender que os grupos aristocráticos do Novo mundo brigassem às tapas por um assento nessas audiências. Na verdade é preciso que se frise presto, e estamos tardios em fazer isto, que era mais que comum o uso da máquina pública para fins individuais, o que comumente se designa por corrupção; e se os espaços públicos eram espaços onde, teoricamente, a vontade real se veria cumprida, ou pelo menos se prezasse por isso, eles, antes de qualquer coisa, serviram para legitimar a aristocracia criolla que se usava deles para conquistar seus interesses, indo muitas vezes de encontro à vontade de Madrid. Fechando esta explanação, voltemos nossos olhos alguns cargos que faziam parte do corpo burocrático das audiências. Em primeiro lugar estavam os sobrecitados oídores ou juízes d’audiência, responsável por fiscalizar as ações dos vice-reis, além de ocupar um lugar de juiz na comunidade colonial. Deles, assim como os vice-reis, cobrava-se que não houvesse mistura com o gentio ao seu redor. Mas eles, assim como os vice-reis, acabavam por não cumprir essa prerrogativa, de modo a assegurar sua permanência e poder dentro da estrutura colonial. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Fios de seda

Tu disseste que partirias,
então meu peito apertou-se.
Lá longe de mim eu sabia
que não te teria em meus braços.
Que tu não me terias aos teus.

É frio quando anoitece,
se a saudade te aquecesse
eu pelo menos seria feliz,
mas tu te vais sem mim
e eu ficarei sem ti...
Lá fora só restará o frio

Teci com fios de seda
meu nome em tuas cobertas
para que quando voltares
ainda tenhas o calor
de meu corpo te envolvendo.

Espera...

Há neve no picos antigos,
por isso não ouço os pássaros
A água do rio corre mansinha
sem me levar a lugar algum.
Carrego apertada ao peito
uma rosa já sem pétalas...
Quando voltares das planícies
me darás outra de volta?

Encontro noturno

Espera o desabrochar do lótus
quando o incenso se apagar                     
            na colina perto da aldeia
que verás o quanto é belo
                  ver uma flor ao luar

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Poema existencialista

Olha pra mim
e deixa minha imagem
se desmanchar no espaço...
para que eu seja só poesia
e não mais Sophya...

para que eu seja ritmo
e não mais movimento.
Que eu não esteja em ti
como ilusão, pensamento.

Desconfigura as formas
do meu corpo mortal,
faz de mim tua letras
as ideias que tu tens
nos recantos mais diletos...

Não mais empirismo
mas construção, permanência...
os versos soltos no espaço
na boca dos nenos e dos velhos...

Que eu não seja mais eu,
seja sim cultura e análise
por que só assim... só assim
eu serei deveras imortal.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sweet Dreams

Tantos sonhos de menina
e o doce luar na varanda
fazem com que a pequena
sonhe com a mãe cantando...

doces melodias tristes,
cantos do quotidiano,
canções da mãe d'água,
ao timbre seu cansado...

Deixa que te acalente, flor...
ouve o sonzinho das águas
que o vento te acaricia
e a chuva te embala...

Sou pequena, mãezinha,
tenho um medo sem tamanho
das sombras do escuro
e dos monstros da varanda.

Shi, fica quieta, menininha
já já a noite acaba...
sorri que vem outro sonho
cheio de doce e goiabada...

cheio de carinho e alegria...

sábado, 31 de agosto de 2013

A moça bonita


Quando em ti os olhos pousei
disse: Vejam que moça bonita,
de longe parece uma artista
cujo nome nem lembro nem sei.

Quem seria ela, Me indaguei,
que anda com tamanha altura,
controla a voz e a postura
e um sorriso daquele? Não sei...

Eu só sei que foi assim 
que algo em mim disse sim
pr'aquela moça que tão linda.

E mesmo depois de casados
olho pra ti e assombrado
vejo que és mais bela aínda.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Coração aperreado!

Coração aperreado!

Cupido, vai te lascar, cupido!
Vai flechar a triste de tua vó
que meu único desejo de nó
é o que te prender bem prendido!

Oxe, e eu to lá virando besta
pra tar levando flecha de graça.
Agora pega tu essas desgraças
e experimenta furar a testa...

Tá doido! Isso só nos machuca,
aperreia, deixa a gente maluca
com vontade de danar-lhe a peixeira

Por isso, cupido, tu te orienta
não vem com essa seta nojenta
que eu te espanto na carreira!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Melancolia do palhaço...

A maquiagem borrou-se, eu sei...
não restou nada mais que dores.
O sorriso que me prendia ao palco
agora não prende mais o coração.

Sim, posso chorar deveras,
se era isso que queria a tarde toda.
Quando eu ante a plateia
dava pulos e cambalhotas.

Agora sim posso enjaular-me,
pedir, de verdade, para ser devorado
pelo leão que em seu jaula
ainda luta pela liberdade.

Agora sim posso ser homem
e não mais um personagem...
posso vestir as roupas negras
que eu queria ao meu disfarce.

Posso enfim chorar, pois sou humano...
posso enfim despedaçar meu coração
em mil pedaços... posso sofrer
agora que estou fora do palco.

... como isto é engraçado...

A maquiagem se borrou, no tristíssimo palhaço!


Sad rose

A flor escrita na pedra,
na pedra o botão de flor...
se queres dar-me presentes,
presenteia-me o teu amor.

Que a rosa pétrea não cheira,
que rosa azul não destila
o orvalho que quero de ti
quando me desfaço em calmarias.

Vem, que a rosa em arte desfruta
de uma solidão sem fim...
tal qual a minha agorinha
quando estou pensando em ti.

Distante és, à minha frente
te encontras como irrealidade...
não te toco, não sinto, não cheiro...
tu em mim, só vontade...

de mim, a rosa mais triste!

sábado, 24 de agosto de 2013

O sofrimento da fé!

A todos aqueles que buscam a Paz:
-Dêem-se o descanso eterno!
A todos que querem conforto veraz:
-Dêem-se a lavoura, enxada e pás!
Para plantar nesse chão carcomido:
-O gota de sangue de nosso Senhor!
Sangue sagrado no madeiro cravado:
-Marcado na testa, na alma e na voz!
A todos que suplicam a divina mercê:
-Cravem nas costas uma fome de cruz!
A todos que viram e ouviram a voz:
-Dizendo que isso é o que resta pra nós!
Daquele que tudo nos pode fazer:
-Até passar fome, doença e nudez
Diga-se atento em uníssona voz:
-Que atente os ouvidos o nosso Senhor.
A Maria, divina protetora e mãe veraz
-Vinde nossa Senhora e dai-nos a Paz!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Só por hoje não chores...

Só por hoje não chores, querida
deixa ao acaso toda essa mágoa
que insiste em te fazer desistir
Só por hoje ignora, ou finge
quem sabe, fingindo, sofras mais
quem sabe, enganando-te
possas realmente sentir tua dor
por isso, querida, por hoje não chores
Guarda tuas lágrimas pra o que vem
por hora... aprecia teu tédio
tua forma de apenas existir
e não buscar nada mais que o
silêncio que assola este quarto
Não, por hoje não chores
não és triste o suficiente para faze-lo
Por hoje esquece tudo... até de ti mesma
Por hoje oferece-te um desprezo
Uma solidão se puderes...
Mas não chores, não agora
deixa pra mais tarde... pra o fim
e se ele não vier...
espera tua tristeza ser o suficiente
para isso
Não chores... quem sabe assim
chorarás mais por dentro
de que expondo ao ridículo tuas lágrimas
Quem sabe quando chegar a hora
terás realmente força de chorar
e assim dormirás nas angústias de teu pranto
te envolverás nas cobertas de teu tédio
até que a escuridão de teu desprezo
feche teus olhos e apague as luzes

Poema de 27/08/2009

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A menina invejosa

Uma outra, invejosa,
morava no vilarejo,
pra imitar a menina
quis fazer o mesmo feito.
Saiu pela madrugada
aproveitando a lua cheia
escondida baixo a roupa
a peste duma corneta.
A invejosa sentada
esperou que aparecessem
os lobos pra que ouvissem
a música da corneta.
Depois de umas três horas
os caninos por fim vieram
um tanto que desconfiados
daquela estranha cena,
mas a outra com um sorriso
leva aos lábios de repente
e enchendo as faces rubras
toca o seu instrumento.
O sonido se espalha
na escuridão da floresta
fazendo voar as aves
e escapar os morcegos.
Os lobos gritam alto: "Para!
Que zoada da mulesta!
Fica ai toda exibida
com a bosta dessa corneta!
Eu ja tô que não aguento
ter que ouvir essa peste!"
E os lobos atacaram
a menina encrenqueira.
Não quiseram devorá-la
"E quem quer essa tranqueira?"
Coisa ruim se joga fora.
Aprendeu, sua danada,
como é feio ter inveja?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A menina e a flauta

A menina à beira do rio,
beira do rio onde estava,
sozinha ao som das folhas
vestida como de nada,
pobres trapos, pobres vestes,
velha flauta afinava.
O vento frio, noite densa,
fazia tremer a carne,
vento a gelar em volta
e os olhos cheios de lágrimas.
Na moita verde, tão verde
os lobos a espiavam
sentindo o cheiro pueril
co'as bocas insaciáveis.
Com as mão trêmulas ergue
a flauta para os lábios.
erguendo à noite vazia
um canto rouco, cansado.
Quase não se ouvia a lira
do cantar pobre e fraco,
só os lobos escondidos
que a presa espreitavam
detiveram-se um pouco
ao som que os assustava.
Mas veio um vento moreno
que de norte a sul andava
parou-se na pequenina
para poder escutá-la.
A menina então sentiu
na presença de um estranho
alguém que ao som da música
fazia as folhas dançarem.
E tocando a flauta rouca
já não temia a mais nada,
nem ao escuro da noite
nem aos lobos que a cercavam.
E então tocou, tocou, tocou
até cair de cansada...
e as feras foram embora
guardando silêncio grave.
Quem te ninará pequena
no silêncio das montanhas?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O naufrago

Aquele homem
pedia esmola na rua
e ninguém o ouvia

só isso...

Aquele instante

Sabe aquele instante de silêncio
que a gente tem depois que amamos...
Aquele momento em que calar
faz com que a gente aprecie melhor
o sorriso de satisfação no outro...
 O momento em que apenas os olhos
se beijam docemente... delicadamente
felizes em ter desfrutado do carinho,
do afago, das palavras maliciosas...
e da companhia carnal, presencial
e é claro que sim, sexual do outro...
Sim, aquele momento que só é possível
quando há sentimento

Então eu penso que também a música
tem seus silêncios...

Retrato

Que tal um beijo?
Um abraço gostoso?
Que tal um cafuné,
uma palavrinha
sussurrada ao pé da orelha?
Que tal um pouco mais de nós
e que tal mais pouca roupa?

Sim, é isso que eu digo...
às vezes me visto de cinza
e meus poemas são por vezes tristes,
mas eu não deixei de ter em mim
a vontade de estar em ti...

Não... não julgues mal!
Sou feminina o bastante
para te seduzir...
como um nu em preto e branco.

Sim, são duas partes de mim...
uma pra dentro do que sinto e penso...
outra pra fora que são só sorrisos.

Todas nós somos assim...
Por isso tu que me lês
e sabes bem quem eu sou
não aches que quando estou triste
eu vá permanecer triste...

eu posso sorrir de novo!

Mas também posso zangar-me,
emudecer, cair a cadência dos versos.
Ser mais obscura. Posso odiar às vezes...

mas sendo alegre ou triste
serei sempre aquela Sophya
dos olhos altivos...

os mesmos olhos vivos
e que por isso choram
e que por isso riem...

A poesia é o meu retrato, se não do meu rosto, pelo menos daquilo que se passa em mim. Poema sincero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A chegada

Quando voltaste pra mim portas adentro,
ao longe vi tua silhueta pela ventana.
Confesso que o peito pulsou e eu tive ganas
de abraçar-te e levar-te para dentro.

"Mas que é isso!" pensei febril, humana...
Por que teus anseios ainda me comovem
por que teus versos em mim se não dissolvem,
mas perduram nesta emoção assim insana?

Tive vontade, sim, eu sei e confesso.
Mas em meu poema não cabe teu verso
e minha vida sem ti mudou de centro.

Então te recebi serena, mas fria
e te presenteei esta última poesia
quando voltaste pra mim portas adentro.

domingo, 18 de agosto de 2013

Última luz

Não me deixes só, meu bem...
sofrer sozinha esta cruz
que já se foi a última luz
e o último verso também.

Escuridão vem e reduz
a medos as coisas mil
e esconde, por ser vil
toda a obra que cá compus.

Ah, delíquios meus d'agora!
Por que insistis nesta hora
em surgir estando eu triste?

Mas ao cantar canto derradeiro
hei de lembrar no verso inteiro
à escuridão que a luz existe.

Gratidão - Série sentimentos

- A criança segurava um mini presépio com tanta alegria que deu vontade de escrever isto!

O que se tem não é muito,
mas é o bem mais precioso.
Sentir-se bem sem ter tanto
e construir em tão pouco.

Mesmo que haja maiores
alegrias e mais sonhos.
Sonhar o seu que existe
e não o sonho dos outros

é o maior bem que se tem.
Aínda que o verso não soe,
é bom que seja assim mesmo,
tímido com a voz rouca,

mas que pode acalentar-nos
só por existir e pronto!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Tensão - Série sentimentos

Havia furor nos olhos
quando dela as lágrimas,
pediam que calassem
a dor que nos causa.

As mãos sob o queixo,
sabiam que suportavam
os suores frios d'angústia
do medo, talvez da raiva,

Assim as imagens contam
de ações sem palavras
desesperos de homens
que ainda possuem alma

Mas calemo-nos nós
para não calar o retrato.

Esperança - Série sentimentos

Uma certeza de cura
quanto maior a ferida.
A mais perfeita morada
é a casa em ruínas.

A falta de pão na mesa
torna melhor a comida.
E a face mais radiante
vem daquele rosto triste.

Os homens tem essa força
motora que os incita
seguir sempre adiante
mesmo quando impossível.

Pois é no branco da neve
e no inverno mais frio
que no brilho das geleiras
que o verão se anuncia.

Soneto bêbado!

Se te não vejo, sofro calada
o sonho da tua ausência
por isso que em essência
olho a mim e vejo o nada.

Será saudade, demência
Essa falta que me falta?
A dor que fica e salta
afeta o todo e a vivência...

Estou bêbada e eu sei bem.
Todas as vozes saem sem
um fluxo lógico, verdades.

Ah, chega! Melhor calar-me,
grito pra não suicidar-me.
Deixa, são só soledades!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Deyse Cristina quer o outono

Deyse Cristina quer o outono
pelo colorido seu tão triste.
Deyse Cristina quer o outono
pelo cair tal a nostalgia...

as folhas douradas do outono
estas as quer Deyse Cristina,
as folhas que estão se indo
dando-nos o último colorido.

Ela quer estas folhinhas murchas
que se dão em adeus, despedida,
porque elas transmitem a saudade
de um viajante longínquo

que vai, mas que promete voltar
no tempo que for preciso...
é essa esperança que ela quer
no fim de outono colorido.

Rainy Day

Dia de chuva, meu amor
esperemos mais um pouco
que o céu se pinta de aço
e a chuva ácida nos fere
ainda que um pouco.

Dia de inverno, manhã fria...
A água pelos esgotos
carregada de cinzas
fere as lembranças que temos
das paixões de outrora
em sintonia.

A chuva na cidade fere, meu amor...
não te precipites ao abismo.
Deixa calado ao peito triste
a saudade que tens quando estás comigo.

Fixa-te um pouco ao seio aberto
que te outorga o sangue da ferida minha.
Deixa que o calor aqueça os versos
que tu querias ouvir alegre...

mas se achas que o sol não sai,
fecha os olhos e me abraça forte,
tal aquelas estátuas que vês a longe
perto de uma loja no final da rua...
queda-te sereno e calmo
que é só um espetáculo esta chuva
e a solidão o enredo mágico.

Fiquemos um pouco, meu amor

sábado, 10 de agosto de 2013

Santos e pecadores



Não poderei mais pisar aqui!
Disse meu coração e chorou
triste de mansinho...
Não, não poderei mais!
E enquanto isso tu sorrias...
sim, aí de longe tu sorrias.

Os muros da igreja são pesados
e densos... a luz das velas
é como um ponto de repouso
que cintila e pode se apagar
quando a dor for imensa...

Mas ainda assim eu sabia
que aí, em algum cantinho longe,
teus olhos meigos sorriam.

Não posso mais pisar neste chão!
Meu coração está denso
como as colunatas desta abadia!
Nem percebo que estou tremendo toda,
tola... como se inda fosse uma menina.

O capelão reza na nave central da Igreja,
ao meu lado uma senhora repetia
as contas de um rosário velho
ao lado da imagem do Cristo.
Como é triste o sangue a brotar
em suas chagas abertas!

Sentada no meu cantinho
julguei se eu estaria melhor...
nunca compreendi bem
a razão disso tudo
como um ato de amor
que nos deixa tão feridos.

Não, eu sei que sou tola!
E não consigo nem juntar
palavras...
nem sei porque estou aqui,

Mas eu sei que por aí,
em algum cantinho longe,
mansamente entendias
que meu pobre coração
na verdade te pedia.

Então tu sorrias!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Quero ver, Dona Chica!


Dona Chica, dona Chica
que mal tem eu brincar
de roubar as frutinhas
que caem em seu quintal?

Por acaso é desperdício
na barriga de criança
umas tantas acerolas
e umas outras tantas mangas?

Olha que Deus castiga,
viu dona Chica?
Que faz chorar a um anjinho
vai se ver Jesus Cristinho.

Ai eu quero ver
a senhora pegar a sua vassoura
e colocar ele pra correr.

Que farás, amor?

Amor, que farás
do sono sem sono,
do sono abandono
quando tarde demais?

Da noite sem lua
sem brilho na rua
versos sem sonhos,
que farás?

Que farás quando o beijo
não for mais desejo
e o desejo for nada
nas noites sem paz?

Pularás do edifício
no momento difícil
dos tempos atuais?

Ou irás às montanhas
recolher das entranhas
da terra uma flor
e a mim a trarás?

Sabe que presentes
os quero ausentes
que de ti não me destes
há tempos atrás,

pois que se findo
o contacto dos olhos
fechou-se a janela
da alma também.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O adeus da musa.

O adeus da Musa

#Ricardo Reis ao pé do leito moribundo de Lídia escuta desta a seguinte canção:


Quando eu me cansar de ser flor
e atenta aos versos escrever ainda,
pétala após pétala, o seio desnudo
deixará secar toda a poesia.



Quando eu me cansar da beleza intata
e ainda assim soar ao longe a lira,
solo, talo, folhas cairão aos poucos
deixando secos apenas os espinhos.



Quando de mim render, suspirar a morte,
os olhos murcharem a ver campinas
grandes lagos, lapsos de uma memória
detendo adentro o que fora está se indo...



não te impressiones da flor que vês,
que entregou-te a beleza que agoniza
Não chores o verso depois da morte...
deixa em meu ocaso tua mão na minha.



Que o lago ja se foi faz tanto tempo,
não passa de imagem a antiga pradaria
os pássaros não cantam como cantavam
nem as flores são mais que mera poesia.



Deixa em paz a tua pequena
deixa em paz a doce Lídia.

Cartas portuguesas


Cartas portuguesas

01. Senhora,
cá nesta capitania
de Pernambuco
foi vossa alteza
servida de enviar
mil flores de craveiros
mui rubras à terra chã.
Trouxe-as a dita nau
com o carregamento
dos escravos d'Angola.
Murcharam-se todas, eu sei
coas pétalas levadas
polo mar até Calicute;
por isso seja servida ordenar
que se procure presto
um caminho no além-mar
até o dito nosso reyno
afim de, por mercê,
vossos olhos contemplar.

Deos guarde-vos muitos anos...

02.  Senhor,
enviou-vos a dita nau
os cravos que vos mandei.
Estes, porém, perderam-se
aquém das águas bravias
desta Terra de Santa Cruz.
Lá não se passará sede,
não se naufraga junto aos peixes.
Portanto seja vossa mercê
descuidado em procurar
nos caminhos de ultramar
as ditas flores minhas.
Deixo mandadas enterrar
como uma memória formosa
que cá está a navegar
um caminho que até vós, senhor,
assim como está.

Que Deos guarde-vos sem prantos
nos certões deste lugar.

Obs: Algumas palavras tem grafia antiga.

Passar ferro

As engomadeiras - Degas


Parece-se a escrever
o ato de passar ferro
que aquela dona de casa
executa com esmero.

No varal ela recolhe
os panos limpos e secos
e por cima do seus ombros
vai levá-los para dentro.

Separa as roupas por ordem:
camisas, calças e meias.
Saias, leçois, bermudas
as fronhas do travesseiro.

Sem tardar ela inicia
a costumeira tarefa
de retirar os amações
dos panos que sobre a mesa.

Uma a uma as roupas ficam
em sua textura correta.
E a dona de casa sorri
dando-se por satisfeita.

Igual labor é a poesia
pra quem quer ser um poeta.
As ideias que nós temos
as levamos para a mesa,

corrigindo os desníveis
que talvez por lá estejam.
Dando um retoque cá ou lá
em cada parte do verso.

Não um trabalho de ourives,
nem tampouco de arquiteto,
mas o de dona de casa:
com suor, mas com afeto.