terça-feira, 27 de março de 2012

O Canto da loba




Sei que estou velha,
das vistas curtas
as faces tão murchas
de tanto chorar.
Sei que singela
da cor de canela
o corpo macio
já não tenho mais.
Não sou tão ardente,
a dos tempos de outrora
a dos tempos de agora
já não te excita tanto.
Sou um tanto sombria
e até sem poesia
sem voz e sem canto.
Repousada, entretanto,
passo em linhas limpas
os versos antigos
página a página
como que em um diário
soltos ao vento.
E penso...
tudo foi tão breve
tudo foi tão efêmero
que valeu a pena
escrever a vida
pelas curvas do meu corpo.
Então me concentro...
e digo pra mim mesma
que agora
que tudo está no seu lugar
posso me divertir
e afirmar mim mesma
que sou especial
que sou já mulher

que sou já mulher

vou partir para o ataque.

quinta-feira, 15 de março de 2012

BELA!

Bela porque é humana.
Bela porque não é bela.
Bela porque sem sê-lo
a tudo em si torna belo.
Bela porque não quer
ser bela.
Bela por que existe
e por existir que é bela.
Bela que olha a praia
e ama por ela ser bela.
Bela por saber que 
pra muitos
ela possa parecer feia.
Mas vive, e se fotografa
numa poesia feita
em sua homenagem.

Bela, porque o tudo existe,
e é assim que ela vê tudo.
Bela porque sabe
que ela não é um nada.
Bela porque sabe
que pode se dar valor
que pode se amar
e que pode ser amada
e ser achada....
BELA.

Sem palavras

Bem, pela primeira vez me sinto incapaz de versificar uma fotografia. Na verdade, há outra que hei de por aqui embaixo, pero quero reter-me a esta. Pra falar a verdade, muitos já perceberam que eu escrevo usando de imagens sempre, e, de vez em quando, há algumas que são desafiadoras. Essa é uma delas. José Ferreira explora o motivo da praia de uma maneira tão exemplar que, nele, eu poderia rememorar desde o tema do nascimento de Afrodite, até o Ismenia de Alphonsus Guimarãens. A pose da modelo carrega uma sensualidade que eu chamaria de sensualidade incômoda, pois que não sabemos se a pose exprime dor, prazer, desejo, nostalgia. Além do destaque a um mar agita e onipresente, que envolve a modelo. Cor também junto com o relevo das ondas cria um estado de tensão que faz o observador entrar num estado de suspense. Afrodite nasceu ou Ismênia se jogou ao mar? Maravilha, essa foto não precisa de poema.

A sevilhana

Amo-te porque sei que com fogo amas,
porque sei que amando doas-te
e porque sei que doas-te com ganas
de quem dança sem medir tuas doses.

Amo-te porque em ti há fera solta
fera que, sendo feroz, ameaça
e que, ameaçando, foge, se solta
se solta do balançar de teus braços.

Amo-te, se bem que em enigma.
Como quem não pede ser ouvido,
amo-te como que em um pulsar tímido
do taconear dos teus sapatos...

Bailadora, bailadora...
que tens no corpo o fogo da Espanha...
acende-o mais uma vez essa noite
na tua carne tensa, como de rifle,
e dispara contra o céu...
mais uma dosagem de lirismo.

O nu...


Se bem não me lembrasse da última vez que nos vimos,
tenho a sensação de que estás presente.
Tenho essa nuance em mim
que corre polo meu corpo
como que em corredores e salas desabitados.
Por vezes, tua memória traz em mim o teu cheiro
que me assoma como a brisa marítima
que ventila todos os espaços do aposento
e te juro que, quando te lembro,
os versos me saem tão naturais que...
não me sinto sozinha.

Por isso me dispo de todas as minhas roupas,
 visto-me das fantasias mais imorais,
imagino os beijos mais ardentes
e calculo diante do espelho a pose mais bela.
Meu corpo nu é um poema...
e é engraçado concebe-lo tão singelo.
Meu corpo nu é o tema
desenhado, esquadrinhado, idealizado
num eu lírico que se desenfreia
mas que tem consciência de suas limitações.
Mesmo assim a tua falta faz desenhar essas imagens.
Porque hoje eu não estou mais triste... estou feliz.

Eu sei que voltas, querido.

quarta-feira, 7 de março de 2012

As quatro estações

Se está frio, vamos esquentarnos ao fogo...
que as chamas crepitam,
e não poderiam ser mais belas,meu bem.
Um pouco de frio e os corpos se buscam,
os corpos degustam um acender-se por fricção,
os corpos debruçam-se... um no outro...
em chamas que o se acendem no coração.

....

Se as folhas caem, não deixemos de amar-nos,
que o vento leva longe toda essa mágoa e rancor,
Se estão secas as folhas, deitemo-las ao chão
como um trapo velho, desbotado
que Madalena trajava antes de ganhar o perdão.
Vistamo-nos d'esperança e esperemos o nascer do sol.
Enquanto isso, os corpos despidos vestem-se de carícias
no desfolhar-se de amores em risco.

...

Se as as flores ressurgem, meu bem, é primavera.
Não precisamos escrever um poema sobre ela,
depois do cansaço sempre vem a recompensa
de esperarmos o nascer da vida, que já está em nós.
Por isso os corpos querem, interferem, bebem
da fonte de Afrodite, desnuda, só vestida de flores.

...

Mas quando tudo for chamas, descansemos da luta,
que é preciso amar e viver em intensidade.
Quando as brasas surgirem, contemplemos somente,
e nos queimemos às vezes... pra termos uma cicatriz
latente em nós, os que estamos vivos de amor.
E quando o calor sufocar, nos banhemos em versos,
uma poesia só nossa... movimento.
E os corpos livres, sentirão-se firmes
pra voltar a se amar quando o frio vier.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Enquanto ela dorme

Enquanto ela dorme dorme
mil olhares buscam buscam
os sonhos que a alentam
enquanto ela dorme dorme.

Mil olhares penetram
sua carnadura murcha murcha
como o sono que a envolve
Mil desejos querem querem
amá-la ao desconforme
de quem a possui por toda a noite
enquanto ela dorme dorme

Mil sexos se armam
em seus olhinhos frágeis frágeis
e sua vontade única
de descansar e somente,
Há quem a cobice mais
enquanto suspirante ninfa
que a deseje adormecida
para desfigura-la em fantasia
enquanto ela dorme dorme

Mas é só sonho e nostalgia
o desejo erótico que sentimos
pois enquanto nos matamos de desejo
ela simplesmente dorme dorme.


Contrastes

É como se a entrada da igreja estivesse fechada. Que estranho, de meninos costumávamos subir essas escadas em busca do horizonte mais alto, tentando assim tapar a ansiedade de não podermos voar mais longe. Coitados de nós, nem nos dávamos conta dos milhões de edifícios ao nosso alcance... Subíamos as escadas num toque como que em campanha, fazendo dos nossos sentidos canhões e das nossas mentes trincheiras e planeávamos milhares de anos luz na sacada da Igreja de N Sª. do Carmo – e bem disse o Senhor a Moisés, O lugar que pisas é terra santa. Sapatos não os tínhamos e, mesmo nossos pés eram mais imundos que qualquer sandália. Mas como nosso coração pulava de uma santidade que só as crianças conhecem... Foi então o nascimento da tragédia. Não que eu me refira à fome, à nudez, ao pedir... mas à destruição da ilusão. O quê do primeiro beijo, o primeiro toque mais íntimos... depois a delícia, o constrangimento, tua fuga. Veio o vazio, depois a busca por trás daquele vazio... talvez o medo do perdão divino,  assim fiquei... Pela primeira vez, entro na igreja pra rezar.