segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Baile de máscaras

Como uma noite de encontros
em que não se sabe quem conta,
como um baile perdido
nas curvas do abismo
Amor, vem
Ser também
parte da minha fantasia.

Como um relógio parado
que torna mais rígido o horário,
como uma chama acesa
que ardendo se expressa...
Amor, vem
Ser também
parte do meu delírio

Como um verso manhoso
que é tão lindo e pretensioso,
como uma máscara pierrot
que tanto preza ao ator...
Amor, vem
Ser também
parte da minha história

Como um sonho infantil
Faz sorrir ao senil,
como o som da flauta
é doce e se refrata...
Amor vem
Ser também
parte da minha poesia.

Do meu delírio
Da minha história
Da minha fantasia.

Em busca do teu olhar

Recife, orla de Boa viagem. A cidade se estende como um tapete aos pés de quem a percorre, à nossa direita um mar de tantos desejos nos convida afogamento. São seis horas da noite. Sentada num dos bancos que há junto dos areais, olho a vida se mexendo como um ser vivo. Há passeios com crianças, há velhinhos caminhando, há gente lendo, outras só a conversar... E eu aqui sozinha. O vento do mar soa perene em todos os meus sentidos e eu sinto como um abraço frio das cidades litorâneas. A noite está tão serena...O mar, sem dúvida é uma benção, com suas ondas a bater nos pés de quem chega perto demais, e o furor de quem o quis navegar. Penso num beijo, logo depois vem a idéia de que poderia desfrutar dessa delícia que é a praia. Tudo aqui parece tão feliz, abro um sorriso tímido pra não ser percebida, e olho... vou olhando a vida ao meu redor. E me afogando nos meus devaneios. Como isso tudo é belo, quem dera todos olhassem o quanto é belo o silêncio da noite quando se está só. O mar, sem dúvida, esconde encantos recheados de algas e corais, mas daqui dá pra sentir o seu abraço. Penso num beijo, então, no teu. Ao sentir a falta tua minha pele se arrepiou... senti frio. Concentro-me mais um pouco e escuto algo em mim, dizendo em forma de vento, que o amar nos aproxima e quebra as distancias. Penso nos teus olhos, que são doces e serenos, como um mar calmo à noite, no teu balanço de onda que me embala, no teu beijo profundo de oceano e tua presença como o vento que me embala. Penso em tudo isso e me abraço a mim mesma, como que pra trazer a tua lembrança e teu perfume, o teu jeito de me cuidar como menina. Então me levanto, só de saber pra onde vou agora me faz feliz e o vento já não me abraça apenas me conduz pra onde eu sei que estarei abrigada. Despeço-me da beira marítima, cada degrau da escada é um convite ao amor. A porta, mesmo trancada, é como uma porta a me esperar. Toco a campainha, a porta se abre e vou abrigar-me em ti.

Canção da criança

A ti canto, menina,
a minha canção mais doce.
Que no doce teu sorriso
Exprimo, os que estes versos
são incapazes de fazer.

A ti eu canto, de encanto,
o doce murmúrio
de uma canção de ninar
que nem a ouves,
mas que te faz sonhar.

 
A ti dirijo, tão atenta,
o olhar de menina
que eu fui um dia
e o olhar de adulta
em que me vou formando.


A ti, não sei se rindo,
se chorando não sei,
eu cantarei, cantarei,
cantarei até me faltar ar,
para que possas sorrir.

Hei de fazer-te musa
dos cantos mais puros
perdidos na alma,
os encanto perdido
na crueza do século.

Hei de fazer-te um fato,
um ponto de impacto
no teu sorriso menino
que mal sabe por que é,
mas que existe.

Hei de concentrar em ti
todos os anseios e acalantos,
todas minhas dores e espantos,
pra fugir de mim mesma,
que Sophya é tão perigosa....

Todos meus espasmos inúteis,
todos meus desejos fúteis,
sem verso, sem nexo, (in)versos.
Pra me abrigar no teu sorriso
No teu abraço e candura,

Como se fosse
a tua canção de ninar.

Navegar é preciso, viver não é preciso

Navegar é preciso, viver não é preciso.
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
            Brasil, 22 de abril de 1500. Na beira da praia um grupo de índios olha uma estranha “canoa” aproximar-se da costa. Não é daquelas comuns, aquelas às quais estavam acostumados a lidar desde a sua mais tenra infância. Esta, ao contrário das outras, assombrava devido a sua descomunal magnitude – 25m de comprimento, 7m de largura e 30m de altura. Sem dúvida a maior que eles haviam visto até então. Tal fato era mesmo de atrair a curiosidade dos transeuntes que se reúnem a ver o que era tal aparato. De repente da canoa grande vem uma menor e com pessoas de fala estranha e jeito estranho de se vestir. Não sabiam eles que esses seres vieram do ouro lado do mar, do desconhecido. Bem, tal deve ter sido a sensação de espanto dos indígenas que tiveram o primeiro contato daqueles que, anos depois seriam seus dominadores. Também não é de espantar que o outro lado se sentisse constrangido diante de uma cultura tão diversa da sua – homens andando nus, “sem pudor algum em cobrir suas vergonhas” e com a boca espetada. Tal assimilação era diversa por demais a uma mentalidade que estava emergindo de um ciclo de profundas crises e reconstruções de conceitos. O “descobrimento” do Brasil, e das Américas num todo, foi, antes de tudo, um triunfo para os descobridores que viam nisso o resultado de vários empreendimentos a fim de dilatar a Fé e o Império, este último principalmente. Não é de surpreender que tal visão desse o aspecto heróico às narrativas e crônicas. Não negamos aqui o caráter conflitante que surgiu com tal façanha. Foi também um choque, mas isso é uma história posterior. Por ora, nosso objetivo é ver, e isso dentro dos limites do gênero ‘artigo’, como a chegada européia aos solos americanos foi resultado, não de um acaso, mas de um longo caminho de pesquisas, de tentativas e de construção de identidade coletiva – a noção de modernidade.
            Mas o que era “ser moderno” naquela época? Até hoje, essa palavra gera graves discussões nos meios sociais e acadêmicos. Geralmente, quando afirmamos a nossa modernidade, o fazemos para contrapor um passado, seja ele distante ou próximo – queremos dizer que há algo em nós que nos faz agir diferente daqueles que são da geração passada. No entanto, nos meados do século XV, dizer-se moderno carregava intrínseco toda uma gama de questionamentos a respeito da época e dos conceitos em voga. Mas esse questionar era um indagar que criava novos conceitos, dentre o eles o de medieval e idade média. E esta como o passado que queríamos negar. Mas o que diferenciava os “modernos” dos “medievais”?
            Segundo Huizinga, o zeitgeist medieval era caraterizado pelo teor violento da vida. Tudo nele era um extremo. Ía-se do ódio ao perdão com uma facilidade quase pueril. No primeiro caítulo de seu livro, O declínio da Idade média, o autor explica o quanto esse teor violento era forte. Segundo ele, o homem medieval era um angustiado, um ser levado pelos sentimentos extremos – ódio, compaixão, cobiça, solidariedade – que atuavam de uma maneira tal que as pessoas nem se davam conta das contradições existentes entre certos atos. Se se louva alguém pela atitude de dar o perdão incondicional, como todo bom Cristão, também não se deixava de ir às praças públicas a fim de se ver um condenado morrer, e de maneira brutal, classificando isso como “bela morte”. O cheiro de sangue e rosas era, pois, o aroma perene dos espíritos desses homens. Deve-se frisar também, que tais extremos eram reflexos da vida ao redor de si - a sensação de desamparo diante das circunstâncias, na verdade a vida era mais perigosa no período medieval, “as calamidades e a indigência eram mais aflitivas que presentemente; era mais difícil proteger-se contra elas e encontrar-lhes alívio” (Huizinga). Sem falar também da grande distância social erigida em cima da ordem vigente. Tudo isso vinculado ao ambiente religioso que estava em volta. Na oração Salve a Rainha, percebemos que o eu lírico mostra este mundo como um vale de lagrimas e roga à virgem que o auxilie, pois só Deus era o alívio, e é em volta dele que há a verdadeira vida. Enfim, era um mundo sem objetivo ou perspectivas de melhora, rezemos e esperemos o fim do mundo.
            Na verdade tudo convergia para se pensar assim. Durante mais de mil anos as pessoas conviveram com situações políticas instáveis desde o fim da autoridade romana no Ocidente. Segundo Jaques LeGoff, a idade média foi uma constante tentativa de retorno à essa época áurea que ficou para trás. Os reinos que emergiram por cima das ruínas de Roma eram reinos de caráter esporádico e em constante guerra com os vizinhos, o que ocasionavam desastres principalmente aos mais pobres. Percebemos também que, no século XI, ocorreu um enfraquecimento do poder central para a nobreza campesina. As cidades também haviam perdido sua importância. Havia um comércio, mas este era quase que inexistente - nada comparável ao que ocorria no final do império e antiguidade tardia. No século XIII os árabes conquistam parte da península ibérica, isto é, o Inimigo venceu os exércitos de Cristo – é claro que os árabes contribuíram em muito para o que mais tarde seriam as grandes navegações, mas quem pensaria nisso àquela altura? No século posterior a peste negra dizimou a vida de mais de 25 milhões de pessoas. Enquanto a Igreja se preocupava em empreender cruzadas que acabavam falhando, a maioria.
            Ora, quem lê somente até aqui, pensa que realmente a idade média foi um período de obscuridade total dos espíritos. Entretanto, não houve uma quebra total com o mundo clássico. No início da antiguidade tardia Agostinho de Hipona escreve sua obra, A cidade de Deus, com base na filosofia de Platão; no século XIII Tomás de Aquino redescobre Aristóteles. Quer dizer, grande parte das obras clássicas foi preservada nos mosteiros, que originariam as universidades. E é graças a eles que os modernos se houveram da arte clássica para lograr seu “renascimento”.Por outro lado, as cruzadas possibilitaram um maior intercambio entre Oriente e Ocidente e a criação de novas rotas comerciais, como a rota da seda, e a troca de informações. Deles também os europeus extraíram um maior conhecimento matemático e geográfico, que depois seriam de extrema utilidade para os futuros navegadores. Daí não ser surpreendente o pioneirismo ibérico frente aos demais no que concerne à tecnologia náutica, Ja que foram eles que conviveram com os mouros mais de perto. Mas voltemos ao foco. Antes das mudanças técnicas e artísticas, as cruzadas fizeram o europeu perceber que o mundo era bem maior que o que se pensava. Não aquela coisa limitada que a Igreja dizia, mas um mundo para ser descoberto mais atraves dos sentidos que somente da fe'.
            O homem moderno, então, era o homem que se deu conta da sua utilidade como tal, que se percebia como agente atuante, dotado de vontades proprias e de desejos. E de meios para logra-los. Entretanto o nascer dessa nova mentalidade trás consigo implicações cruciais: a partir do momento em que o Eu percebe em si o poder de transformar, logo surge nele, a partir da análise com base no conhecimento empírico (SOCORRO FERRAS, 2000), a necessidade de domínio O que difere este homem do das gerações anteriores e' o caráter violento dessa necessidade; o medieval domina a natureza devido a um fator circunstancial - e quando falamos em circunstancia deixamos implícito o contexto histórico -, isto e', o principal objetivo destes homens não era dominar a natureza, mas viver para agradar a Deus, posto que Ele era o centro de tudo (teocentrismo). Já o homem moderno não, este dominava/transformava/criava com objetivo justamente de dominar/transformar/criar, porque ele agora queria agradar a si próprio De certa forma podemos dizer que, juntamente com os avanços científicos e estruturais, a modernidade foi uma redescoberta do prazer, não só o prazer intelectual, mas o prazer físico também
            Com o ressurgimento do caráter central das cidades e do fluxo comercial, um outro problema passou a apresentar-se: a falta do ouro. Vários autores documentam que a questão já se mostrava no seculo XIV (LINHARES, S/D). Houve uma exploração intensa dentro de territórios como o da atual Alemanha e no leste europeu, entretanto essas jazidas não eram suficiente para alimentar o comércio cada vez maior dentro da Europa. A falta do metal precioso provocou aumento nos gêneros comercializados, o que dificultava as vendas, e provocavam prejuízos a nascente burguesia. Ademais, como nos dizeres de Linhares, era preciso contornar o monopólio veneto-genoves e rumar novos caminhos em relação ao Oriente." O seculo XIV foi um tumultuoso período de revoluções Abismos sociais e inquietações econômicas surgiam em toda parte, gerando em todos os setores da vida" (Linhares, Ed. Campus, S/D). Resumindo, havia um problema, o homem queria se expandir, queria trilhar novos ares, bancar seus prazeres, mas como fazer isto?
            No conjunto de territórios que compõem a entrecortada geografia europeia, a península ibérica tem um lugar de destaque no que concerne a questão acima exposta. Dona de uma posição estratégica privilegiada, ela sempre serviu de lugar de passagem para muitos povos. E, consequentemente, um lugar de troca de informações Portugal havia passado por um período conturbado, na segunda metade do seculo XIV, logo apos uma crise dinástica, sobe a coroa a estirpe de Avis. Segundo vários autores, a ascensão dessa dinastia representou o ponto de culminância dos vários processos de transformação pelo qual a península ibérica vinha passando. A proclamação de D. João I, nos mostra claramente quais eram os caminhos que os portugueses queriam traçar de agora por diante, principalmente a burguesia. Entretanto cabia ao novo monarca cumprir os anseios da nação, ou melhor, da elite que o proclamara. Sabemos que a Europa passava por um momento de crise inflacionária devido a falta de ouro, havia também a questão do monopólio dos genoveses e a necessidade de obter um caminho as Índias João sabia que não tinha condições financeiras de concorrer com os genoveses, e empreender uma cruzada seria fatal as finanças do reino. A única saída estava nesse mar tenebroso, habitado de feras e tão temido pelos homens daquela época
            Muitas pessoas dão uma ideia simplista da conquista do Mar Oceano, atribuem-na apenas ao espírito aventureiro e religioso do lusitano. Socorro Ferraz, num artigo em comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil, afirma, num dos trechos usa a palavra "insisto", no caráter errôneo dessas afirmativas. As conquistas empreendidas por Portugal estavam inseridas dentro de um contexto de modernidade. Para lograr tão grande empresa, os regentes da casa de Avis fizeram o maior esforço para reunir astrônomos, matemáticos, navegantes, geógrafos cartógrafos etc. Era um caminho difícil a ser traçado, o mar era incerto, entretanto já se havia uma base de conhecimento travada com o contato com os árabes Em 1415, com a conquista de Ceuta, tem inicio o processo de expansão marítima na costa africana. Juntamente com a exploração desse litoral, houve também a identificação das correntes marítimas, dos ventos e das coordenadas geográficas de cada sitio. Socorro também destaca na importância do geografo Mercator, "que representava os meridianos de longitude por paralelas equidistantes e as longitudes por perpendiculares aos meridianos. Como as linhas de latitude se espaçavam cada vez mais a medida que se aproximavam das regiões polares, os graus de latitude eram aumentado na mesma proporção que os de longitude" (Citado em Ferraz, 2000). A autora também destaca o papel que o conhecimento empírico teve nessas descobertas. A conquista das ilhas atlânticas e a sua colonização pode ser vista como uma afirmativa portuguesa do quão longe eles queriam chegar, e' claro que havia um fundo econômico e expansionista, mas de certa forma, foi também um ato de coragem. Manuel Correia de Andrade em seu artigo diz que antes da chagada lusa as terras brasílicas, os navegantes ja passavam perto da costa antes de ir as Índias Dai ser inconcebível dizer que tudo foi obra de acaso, de mero espirito aventureiro. Havia um conhecimento e havia um interesse, e esse interesse moldou os rumos que a história iria tomar posteriormente.

EPILOGO
Decidimos colocar o poema de Pessoa no inicio por ser, a nosso ver, o que mais fielmente exprime os medos e os anseios que levavam os portugueses a lograr tais empresas. O poema trata-se do choque entre um marinheiro e um monstrengo, este ultimo com certeza simbolizava os medos e as incertezas dos navegantes. O confronto e' constante nas duas primeiras estrofes. O monstrengo se mostra ameaçador, pergunta que era que tentava se assenhorear do seu mar sem fundo, mas o homem, por mais medo que tivesse, não desistia de sua empresa e respondia sempre: "El rei D. João segundo". A ambientação do poema mostra o caráter heroico lusitano - era noite e havia um monstrengo, e contra ele um homem ao leme. Na terceira estrofe o marujo fixa suas mãos ao leme e desafia literalmente o monstro. Na nossa concepção, Pessoa quis demonstrar como a expansão marítima foi uma história da superação do medo e do mito para um caminho de conquista e realização.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

As rosas

As rosas

O vento do norte
soprou no teu jardim, amor.
Colherás as rosas?

A flauta mágica

Uma sequência lógica
de tal harmonia inata,
que mais parece música
esse estar a olhá-la.

Métrica em conjuntura
com o todo que exala,
todo, tal qual uma peça
feita para escutá-la

em todo seu movimento,
seu ritmo e seu compasso
que para senti-la toda,
é preciso estar a amá-la.

Mais que isso, precisa-se
conhecê-la, frequentá-la,
em todos os seus aspectos:
do seu tudo ao seu nada.

Porque se música é ela,
seja romance ou ária,
se é toda ela harmonia
terá também a sua pausa.

Que é espaço onde ela
seu ser íntimo prepara
pra daí mostrar-se toda,
com seus mil sons enfeitada.

Pra não ser somente vista,
broncamente executada,
pois, para amar essa mulher
é preciso interpretá-la.

Dar textura ao seu canto,
sua forma e matemática,
e só assim desta forma
soará a flauta mágica.

Cujo canto milimetrico,
todo pudor extravasa.
É de uma tal melodia
que só resta apreciá-la.

Era de repente o frio

Era de repente o frio...
depois, o verbo feito carne.
As bocas gemiam,
os lábios tremiam,
os gestos falavam.

Era de repente a cama...
depois a dose exata de si mesma.
Um pouco de pão,
um pouco de vinho,
o vento soprava.

E era de repente o frio...
depois o fulgor e a candura.
Não dizíamos nada
não queríamos nada,
os corpos faziam.

Então foi de repente a cama,
depois o calor gota a gota.
Cada gesto era único,
o prazer era único,
e o corpo tremia...

Era de repente o frio...
depois só um olhar instintivo,
estávamos nós na cama,
no calor de estar contigo
quando era de repente
FRIO.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pergunta de Criança




Eu estava hoje na estação à espera do próximo trem e, por mera casualidade, sentei-me ao lado de uma mãe que estava a falar com o seu filhinho que deveria ter entre seus quatro/cinco anos. Bem, do outro lado da estação, ou melhor, entre uma carreira de trilhos e outra, há umas placas que são usadas para colar propagadas; e numa delas havia um anúncio de um produto de limpeza. Como é de se esperar e do gênero, o banner apresentava a foto de uma garrafa do produto dentro da água, e é claro, uma água limpíssima. Só que como já há um bom tempo que ninguém troca esse papel, ele se desgastou num dos cantos, dando-lhe um aspecto mais esbranquiçado na área. Ao ver isso, o menino perguntou se aquilo no canto da placa era sujeira ou era cuspe. De início a mãe não soube identificar o que era que a criança estava apontando; ficou perguntando o que era, onde, e só depois soube que era da placa que estava-se falando. Feita a identificação do objeto, a mãe, muito calmamente, diz:
-Meu filho, aquilo é só um papel velho. Não é cuspe não, cuspe só sai da boca... e não é cuspe que se diz, é saliva.
-Como, mãe? - Pergunta o menino
-Saliva, meu filho, sa-li-va...
-Mas o que é isso, mãe?
Então a mãe perde a paciência e diz:
-Oh, menino, deixa de encher saco! Saliva é cuspe!!!
Então meu trem chegou.

Confusão no coração


O amor rebelou-se,

disse estar muito insatisfeito

com as condições de trabalho.

Mandou uma nota dizendo

alegando estar a ser mal tratado,


O amor disse NÃO:

às mentiras, ciúmes e traição,

quer atuar num lugar limpo,

num lugar seguro,

livre da intolerância

e da insegurança...


O sindicato dos sentimentos

respondeu dizendo estar de acordo,

mas que fazer greve seria fatal.

Muitas pessoas pirariam

outras perderiam empregos

e muitas se matariam...

O problema era que A RAZÃO

se tornou mais oportunista,

sufocando a livre iniciativa

dos sentimentos,

usando de marketing e especulações

que se baseiam no já...

lucro inicial, imediato.


Ao mesmo tempo

o CORAÇÃO alegou

estar cansado de tanto disse me disse,

e que tanto discurso só vai fazer

mais bagunça...

“é preciso chegar a um consenso”

disse a Razão,

mas o amor não dá trégua:

“Você só pensa em negócio, rapaz!”


E assim nessa briga

a gente vai levando...

Na vida é assim

Entre o Amor e a Razão

quem se dana é o coração

Cantar d'amigo


Hei de cantar-te,

calma e serena.

junto as ondas

que são tão belas,

um cantar d’amigo

pra que venhas logo,

pra que venhas logo.


Um cantar tão doce

pra que não recordes

d’outras donzelas

de por onde fores,

e de por onde estás

pra que venhas logo,

pra que venhas logo.


Hei de cantar-te

mirando a luna,

os olhos chorando,

de saudades tuas

que se derramam

pra que venhas logo,

pra que venhas logo.


Hei de tocar

com a viola na mão,

estes versos tristes

tal como estão

um cantar entonado

pra que venhas logo,

pra que venhas logo.


Ai, dunas da ribeira

dos verdes campos,

se alguma coisa dizeis

do meu amado

que hei de fazer

pra que venhas logo,

pra que venhas logo?


Que a velhice come

minha mocidade,

meu brilho na face

perco minha idade

em rezas e jejum

pra que venhas logo,

pra que venhas logo.

Amor criminoso

-->
Sou eu tua prisioneira
teu coração cativo
teu verso de fogo
teu amor proibido,
Sou lâmpada aos teus olhos
brilhando, bailando ao teu fogo
no teu ardor antigo...
Sou teu tudo e teu nada
ré reincidente do mesmo crime
sou teu hálito, teu perfume,
a roupa que usas
quando tiras a roupa,
Sou teu beijo roubado
o teu crime perfeito,
tua moral sem conduta...

(Roubei de ti as forças
o tempo, os gestos,
a poesia,)

Tracei meus vôos, meus planos,
vou te levar comigo
aonde eu quiser...

Meu herói, meu bandido.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Arrepio




I

De repente foi o choque,

Sensação desastrosa do contraste,

Depois veio o verso,

A surpresa de que existia algo.

A primeira coisa que pensei

Foi no teu toque inesperado

Entre as minhas ansiedades,

Depois, veio a ânsia de que me possuirias,

Uma pontada cinismo disfarçado de timidez

Que me enlevava em côncavos e convexos

Traduzidos em carícias, beijos.


Foi tudo uma ilusão desafiadora,

Uma moral sem sangue, desterrada,

Filha das íntimas entranhas do que se pode chamar Sophya Aurora,

Um ser indigente, por vezes indigesto até...

Foi tudo tão avassalador como os medos de uma virgem.

Foi o sexo um manto suave e o licor uma cantiga desesperada

Foi tudo um nada, feito de suspiros e versos.

Talvez eu fizesse uma poética menos crua do que essa,

Talvez eu até pense que assim te agradaria

Mas como fazer isto sem te rasgar de mim?


II

Quando pensei em te ligar hoje,

Foi-se de mim minha própria vontade,

Meus próprios anseios...

Segurei trêmula o telefone, olhei os dígitos, as intenções feitas nada,

Os versos escritos ao ar...

Uma dor forte me afligia dos pés à cabeça...

E, como, como não tinha muita escolha,

Decido-me entre ser ou não ser...


Quiçá tu ligasses mais tarde,

Quiçá não tardasses tanto se não dissesse que te esperaria

Quiçá ainda te escondesse sob minha saia,

Sob meus seios, sob meu corpo...

Ou, quem sabe, eu me tornasse mais romântica,

Não fosse tão ordinária como as rameiras da esquina

Mendigando prazeres a troco de nada.

Mas sou aquilo que vês e te espera...


III

Mais tarde fará um frio de lascar,

Se bem estivesse sozinha,

Abrigar-me não será complicado...

Tenho meus próprios sentidos

Que me dão idéia de como devo viver

Por isso, pego o taxi e vou dançar...

Às vezes a solidão não é sinônimo de estar só,

Mas a busca de alguém na multidão,

Um ser ensimesmado inconformado com o já...


Te quero, e apagar isso de mim é que dói.

Onde irei se tu me faltas?