quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Construção cabralina


Construção cabralina

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Quis escrever-te como
mão alheia que te pinta;
Sem ser meu no entanto,
mas cópia feita em vida

Quis desenhar-te casa
na qual se habita
sob teto de encomenda
tal palavra assim escrita

Fazer da geometria alheia
o metro que não possuo
As medidas inconcebidas
insonhadas num futuro

que tal desenho hodierno,
se faz olhando as coisas
não sentindo-as, vendo-as
traz à mente imagens moças.

II
Esse desenho inconstruto
não é algo que digo meu,
faço-o, tal qual decalque
duma lira muda de Orpheu

Estéril de intelecto altivo
das emoções palpitadas,
são apenas pulso hipnótico
duma imagem comparada...

Tal pulso a pulsar, o pulso
destas formas cerebrais
dá-me a ver o meu carma:
Aquilo que em mim há...

Não sou tão áurea, poeta
por isso tento te construir
n'algo que me projeto
a mim mesma a seguir...

Uma escrita construta,
mas tão alheia e árdua
que só me resta entender
o metro de tua estátua

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