sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Arrepio




I

De repente foi o choque,

Sensação desastrosa do contraste,

Depois veio o verso,

A surpresa de que existia algo.

A primeira coisa que pensei

Foi no teu toque inesperado

Entre as minhas ansiedades,

Depois, veio a ânsia de que me possuirias,

Uma pontada cinismo disfarçado de timidez

Que me enlevava em côncavos e convexos

Traduzidos em carícias, beijos.


Foi tudo uma ilusão desafiadora,

Uma moral sem sangue, desterrada,

Filha das íntimas entranhas do que se pode chamar Sophya Aurora,

Um ser indigente, por vezes indigesto até...

Foi tudo tão avassalador como os medos de uma virgem.

Foi o sexo um manto suave e o licor uma cantiga desesperada

Foi tudo um nada, feito de suspiros e versos.

Talvez eu fizesse uma poética menos crua do que essa,

Talvez eu até pense que assim te agradaria

Mas como fazer isto sem te rasgar de mim?


II

Quando pensei em te ligar hoje,

Foi-se de mim minha própria vontade,

Meus próprios anseios...

Segurei trêmula o telefone, olhei os dígitos, as intenções feitas nada,

Os versos escritos ao ar...

Uma dor forte me afligia dos pés à cabeça...

E, como, como não tinha muita escolha,

Decido-me entre ser ou não ser...


Quiçá tu ligasses mais tarde,

Quiçá não tardasses tanto se não dissesse que te esperaria

Quiçá ainda te escondesse sob minha saia,

Sob meus seios, sob meu corpo...

Ou, quem sabe, eu me tornasse mais romântica,

Não fosse tão ordinária como as rameiras da esquina

Mendigando prazeres a troco de nada.

Mas sou aquilo que vês e te espera...


III

Mais tarde fará um frio de lascar,

Se bem estivesse sozinha,

Abrigar-me não será complicado...

Tenho meus próprios sentidos

Que me dão idéia de como devo viver

Por isso, pego o taxi e vou dançar...

Às vezes a solidão não é sinônimo de estar só,

Mas a busca de alguém na multidão,

Um ser ensimesmado inconformado com o já...


Te quero, e apagar isso de mim é que dói.

Onde irei se tu me faltas?

Sobre os significados e o falar



Sobre os significados e o falar.

Procurar palavras no dicionário é um bom hábito, disso não se tem dúvida. Procurar origens etimológicas pode também tornar a semântica interessante do ponto de vista intelectual e cultural. Até hoje o mundo se depara com a problemática dos significados, isto é, que quer dizer tal nome, de onde vem, qual o uso correto etc. Tais indagações ocupam vastos debates acadêmicos ou de meios de comunicação, toda uma parafernália se forma com o intuito de ensinar ao emissor a maneira certa de se passar uma mensagem. Entretanto o que se discute perde-se num todo que se torna como que uma dissecação do código oral ou escrito. Algo como: “Use o verbo tal, ou palavra tal, cuidado com a concordância”. Mas perguntemo-nos uma coisa: e o emissor, onde fica nessa questão toda? E o contexto usado pelo emissor que fez com que ele usasse tal palavra e não outra. Discute-se significados como que uma coisa morta, é ou não é. Bem, não sou nenhum especialista em lingüística, sou nada mais que um mero formando em história, mas como usuário e produtor de textos, nos quais se precisa muitíssimo do uso da metalinguagem e da cognição semântica, acho que posso dizer um pouco do que acho em relação a isso. Se nos prendermos somente na frase em si, do ponto de vista puro e gramático, a língua perde a vida. Meio que se artificializa. Ademais uma palavra não é só um objeto abstraído de suas propriedades físicas, espaciais, naturais, e transformado em um código escrito, mas um amontoado de contextos que a fazem com que ela exista. Se andarmos na rua e tropeçamos numa pedra e dizemos “Droga”, bem, droga não quer dizer aqui, substancia entorpecente, mas “resmunguei porque tropecei na pedra”. Ora vejamos a breve história deste desafortunado que tropeça em tal obstáculo ao seu caminho. Ele está andando, indo a algum canto, todo seu trajeto tem uma seqüência lógica, planejada, “Eu vou me locomover de A e vou chegar a B, tenho um ritmo tal etc.” Nada o atrapalha nesse planejamento, até que vem a monstruosa pedra e quebra um pouco essa seqüência. A quebra disso faz com que a situação nos pareça adversa. Ora o que se passou é um fato súbito, repentino, inesperado, a nossa reação também, e, como bons animais comunicativos, traduzimos nossa exasperação em uma palavra só: “Droga”. Então se percebe que as palavras obedecem a um contexto para se significarem entre si. Esse contexto não esta no emissor nem no receptor, mas na história da pedra que estava no meio do caminho. Ora significados são coisas socialmente criadas, nessa lógica eu poderia dizer que “Droga” é sinônimo de “Merda”, segundo o contexto acima exposto, isto é, ambas querem traduzir a reação a um fato inesperado. Mas vejamos o caso da ironia. O sujeito chega atrasado a um encontro com a namorada, o qual marcara que ocorreria às dezoito horas. Chegando lá, com meia hora de atraso, está a dita com semblante enfurecido e diz: “Oh, seis horas, hem?”. Neste caso sabemos que é ironia devido ao contexto também, sabemos que ela quis dizer “Você não chegou às seis horas, mas meia hora depois.” E outros infinitos casos. O ensino formal da língua peca quando se prende à mensagem e não ao contexto, à forma e não a quem o forma. A língua é feita por pessoas que a falam, que querem dizer o que pensam, não pelas nossas gramáticas e alfarrábios. Mas, infelizmente, ainda pensamos que expressar-se bem consiste em só seguir a norma culta e não nos lembramos que a mesma também não passa de uma convenção, cujo significado foi criado a partir de uma perspectiva do mundo, e como somos nós quem ressignificamos tudo ao nosso redor. Só compreendendo isto é que poderemos trabalhar o ensino normativo como uma coisa viva e não uma coisa pedante. E escrever melhor, é claro.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pinta-me um retrato carvão


Pinta-me um retrato carvão

I
Digo-te que não te apresses tanto
se bem saiba/veja a despedida
como um mal iminente, uma realidade atroz,
te peço que fiques....
só mais um pouco a contemplar-me.
Te peço que me vejas, me sintas
como aquela menina franzina de outrora
que andava nas ruas pedindo tua piedade,
que se prosternava aos pés de um calabouço insano
de intrigas e devaneios que, por mais idiotas que fossem,
doeram e machucaram
E QUE CRESCEU!
Se bem perdesse todos os conceitos e objetos outrora tão iluminados...
Digo-te que isso não é mais que uma mera históra das tragédias quotidianas.
Perder talvez fosse a parte mais difícil de um todo. Um aniquilar-se dentro
das formas e dos prazeres/orgasmos. Afinal é só isso que deixei atrás.
Talvez essas lágrimas que, hoje, me vês verter não existiriam,
e que tudo isso não passasse de tolice da minha mocidade.
Mas quando calei, fez-se o abismo.
Como deixar isto passar em branco?
Talvez fosse tão bela porque sou fraca,
e minha beleza em si não passasse de uma folha adornada
na qual escreves bonitas histórias, teus melhores poemas, uma carta de amor.
Talvez quiseras ainda provar da maciez do meu corpo, dos meus cabelos, o beijo da minha boca e o...
Talvez já não me vejas como aquela Sophya que se esqueceu de tantos afetos que já não te espera...
mas pede que fiques um pouco mais
Já é meia noite, me traz um conhaque, e por favor não bagunça tudo.
A cidade está tão perigosa, o vento fri da noite nos desenha...
não sei mais se estamos nus... ou vestidos...

II
De tudo que sei é de que suspiravas
quem sabe nossa história não fosse tão trágica assim.
De princípio eu era a menina que ia ao parque Treze de Maio
com seus cabelos atados e saia florida,
e tu me dizias se queria uma flor...
E como eram belas as flores que jogávamos fora...
Tão coloridas e moribundas, nem nos dávamos conta
do quão perversa era a nossa pureza...
Cores, que bonitas são as lembranças quando as temos coloridas...
Bem, se queres ir, só te peço mais um pouco...
Peço que retrates pra mim o belo que se foi....
que me retrates bela, como me imaginavas que fosse
e, só depois, apagasses as luzes e dissésses Adeus...
Pinta-me um retrato carvão.

Penas


Penas

Apenas um punhado de sal
Apenas um tantinho de arroz
Apenas um pouco de café
Apenas água, apenas pão

Apenas para aliviar as penas.

Os trabalhadores.


Um corpo todo informe

De um aparelho complexo

Que em cujo mecanismo

As peças não são objetos.


Talvez aparato o fossem

de distinta natureza,

e de um material meleável

e movidos em fileiras.


Uma máquina, apesar de,

Com diretrizes, projetos,

Movimentos programados

E com seu próprio dialeto.


E com suas funções básicas:

de alocação, interesse
funcionamento, lógica,
da faxina ao gabinete.

E se é uma máquina
e não são objetos peças
de onde virá sua energia
que faz com que obedeçam?

Será energia eólica,
hidráulica, elétrica?
Será que de manivela
ou eletromagnética?

Ou será que de vontades
de paixões ou pensamentos
ou será que seu motor é
simplesmente o desejo?

Mas que quer esse aparelho?
Somente obedecer, servir?
Quem sabe se ver tal gente
ou só e somente ser feliz?

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Se tu me visses




Hoje meu corpo acordou com uma vontade

Danada de te ligar, de pedir para que venhas

Que, sem pensar, já me vi cantando, me arrumando

Para hoje a noite.

Tinha um sorriso tão alegre em minha face,

Que se tu me olhasses, me desejarias mais.


Hoje eu me senti tão alegre, com ânsias

De dizer que és meu tudo, meu bombom

Que, pensei até que fosse ciúme

De te ver com outra.

Fiquei tão cheirosa e tão arrumada

Que se tu me visses, me abraçarias.


Hoje, querido, desejei tanto que estivesses aqui,

Sonhei contigo e estavas tão lindo

Que, sem me dar conta, me fiz de tonta

E até gritei de amor.

Te quis tanto, de dar espanto essa paixão

Que se tu me visses, quiçá tu risses de mim.


O que será que me deu hoje

Que penso tanto em ti e te quero tanto

Que, sem notar, estou eufórica e até melancólica

Querendo dengo?

Ah, amor, te desejo tanto, e mais um tanto

Que, se tu me visses, virias já.


Então vem logo, se possível agora

Que te espero desse jeito, tão elétrica

Que, sem ligar, vou te aguardando

Bonita e cheirosa

Com um sorriso tão alegre e sincero,

Que, se tu me visses, me amarias já.

As nuvens


As nuvens levaram

Meu esplendor de menina,

Meus sonhos antigos de menina,

Minha voz de menina...


As nuvens sobrevoaram

Por minha forma franzina

Passaram por minha casa

Meu telhado, minha cama pequena.


As nuvens se desenharam

Trágicas e anêmicas

De um branco anêmico

De minha infância anêmica.


As nuvens se juntaram

Em cristais de vento esparso

Povoaram espaços que

Sem eu saber, estavam vazios.


As nuvens se desenharam

Em formas complexas

De uma vontade louca

De te ter aqui.


As nuvens passaram, se foram...

Levaram meu jeito de menina

Minha voz de menina

Meu amar de menina, Sophya.

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...