domingo, 10 de julho de 2011
Uma tragédia recifense
Canto da velha senhora
Reflexos perdidos na cidade
Toda cidade é um movimento só
Um pêndulo só
Um desvario só
Que se incrusta na pele
Nos lábios, pulmões e alma...
Mas que, por onde andarmos
Nos dá a entender que
A vida se mexe
E se mexe por haver
Mesmo nos desencontros
Um outro tipo de encontro,
O da solidão e o da mágoa
O de uma alegria e de uma tristeza
Ou de nós mesmos
Diante dos diversos espelhos
E vitrines das nossas emoções.
São reflexos esparsos
Mas que permanecem tão intactos
Que ao todo
Chegam a ocupar espaço
Onde estão os vazios?
Um pedaço de mim ainda te espera
Um pedaço de mim ainda te espera
São seis horas da manhã
Lá fora o barulho dos carros
Mistura-se ao que resta da ventania
E ao piar dos pássaros.
Faz tempo que surgiu a aurora
Um vento ainda gélido
Entra pelas janelas do nosso apartamento
E invade como quem se pede
Mas ao mesmo tempo se oferece
Num holocausto concebido pelo
Despertar dos corpos em transe...
Sabemos bem que temos que nos levantar,
No canto posterior da vivenda
Piados compassados do despertador
Chamam-nos num convite à vida
Que se desentranha lá fora
Como se fosse parte de nós
E na verdade o é,
Nem tudo é silencio na grande metrópole sonolenta.
No chão de nossa casa
Vejo nas cadeiras os restos
De uma roupa que tiramos às pressas
- meias, saias, cuecas, gravatas, lingerie –.
E um pouco de mágoas,
Talvez somente ansiedade
Enfim, destrincho diante dos meus olhos
Um pequeno gesto de doação fugidia
E grandes pedaços de arrependimento:
A que horas te foste, por onde andas?
Sento-me na cabeceira sem mais porquê
E vejo a rua pela ventana principal.
Os carros tecem-se em teias de aranha
De um abismo no asfalto,
Mas que, por seu movimento,
Devem ter algum encontro...
Então acho que devo esperar,
Por algum motivo este vazio
Me traz a certeza de tua espera
E dos desejos que juramos
Numa noite destas...
Então espero
E continuo a esperar
Até sentir-me segura
E ligar-te pra desejar bom dia.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Homenagem a Deyse

todos os vocábulos estrangeiros, dialetos, línguas artificiais,
ainda que eu inventasse milhares de palavras
verbos, orações subordinadas, sintaxes, objectos..
mesmo assim nao poderia exprimir o signifcado
de tua presença em minha vida...
é algo que não se define mas existe porque tu existes
e és o que és, não o que a semantica linguistica define
como lexico dentro de um contexto... e sim
porque es a minha amada real, de carne, osso e sentimentos.
Como uma flor singela, ou melhor, como tu mesma.
Te amo
terça-feira, 15 de março de 2011
Alma sonhadora

pra te trazer de volta,
basta uma mirada
pra te ter aqui,
Basta um pensamento
e tudo se refaz
basta estar triste
pra me lembrar de ti.
Por que estás aqui ainda
por que insistes em estar
por que tudo é tão só
se tão somente não estás?
Por que te foste
e ainda ficas?
Por que não vais
sem deixar rastros
por que a vida
nos deixou uma lágrima?
Por que esta lágrima
é tão difícil d'enxugar?
Nós dois
Passageiro

não a beleza
do estar cá
nele está
não o querer
estar,
Nele está
o belo agir
da partida
Nele está
a beleza
da despedida
Nele está
a esperança
do encontro
Nele está
o início
de um conto
Nele está
o abraço
quando chega
Nele está
o abraço
quando parte
Nele está
o poema
pela metade
Nele está
o ponto
de partida
Nela está
uma ânsia
sentida
Nele está
um frio
na barriga
de quando
não se sabe
pra onde se ir.
Nele está
o desejo
ambíguo
Nele está
o estar
partindo
Nele está
não a beleza
do estar cá
e sim
a beleza
de passar
Plano secreto

Plano secreto
para te fazer suspirar...
Plano que homem nenhum
sonharia encontrar
Tenho-o desenhado aqui
nas linhas do meu corpo
nos gestos de minhas mãos
no balanço do meu dorso...
Para te prender a mim
e somente assim
não te deixar escapar...
Nietzsche uma vez falou
que as mulheres são perversas...
mas por quê?
Que pecado tem em te querer?
acaso resistes aos meus encantos?
Se não é isso que desejas
por que teu olhar me cobiça?
Não, não é pecado
um pouquinhho de sedução
nunca fez mal a ninguém.
Então vem agora, já
que meu corpo
ja preparou sua estratégia
para te receber como amante...
pra que dentro, intimamente
carnalmente nós dois...
façamos uma briga de amor.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
À tua espera

À tua espera
procura-me no vazio que deixaste,
nas tardes sozinhas em que fiquei
desolada à tua espera...
procura nos pratos sujos
da nossa ultima janta
que, de tanta dor, ainda não lavei...
Procura nos copos quebrados,
nos paredes mofadas de tua ausencia...
Quiçá lá vejas que lá fiquei...
Procura ainda nos versos que te dediquei
os quais não quiseste mais ler,
procura no violão desafinado
encostado no canto do quarto
sem música, sem melodia ou triste som...
Procura nos espaços vazios da sala,
nos lençóis que que a traça roeu
nos travesseiros que fedem a lágrimas...
Procura, procura mais uma vez se tu queres...
Verás que no vazio de nossas vidas
hão de ficar as ruinas da nossa casa caindo aos pedaços
e o resto de mim que ainda ficou te esperando
O tempo e os rastros (Monólogo em versos)
O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...
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O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...
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Quando morreres, talvez te enterrem em cova ou gaveta. Talvez façam pra ti um lápide e um epitáfio. Talvez tenha apenas a d...




