domingo, 10 de julho de 2011

Uma tragédia recifense


Uma tragédia recifense
Recife; há algum tempo atrás. Já era quase madrugada quando Júlio saiu do bar naquela sexta-feira. Ninguém soube dizer ao certo por que circunstâncias ele decidiu sair mais cedo do que todos, posto que o plano era dali irem a uma dessas casas noturnas que há espalhadas pelo centro e por Boa Viagem. Alguns amigos perceberam que, apesar do grande esforço em parecer sociável, alguma coisa muito estranha o perturbava, por isso acharam por bem não insistir muito. Depois de despedir-se de todos, Júlio pegou a sua mochila e se dirigiu ao ponto do ônibus. Ele era um daqueles típicos homens da periferia, isto é, tinha a pele morena, estatura mediana, gostava de beber com os amigos, falar de mulher, trabalhos, chamar alguns palavrões e essas coisas todas de um jovem de 26 anos.
Como é de costume, o coletivo demorou mais do que deveria, o que fez com que Júlio se sentisse preocupado. Falemos abertamente, este nosso personagem nunca perdia uma boa farra com os amigos nas sextas, só por um motivo de grande gravidade, o que denota que, por algum fator de ordem desconhecida, ele não está no melhor dos dias. Quando o transporte chegou era visível o estado de preocupação em que estava. Suando frio, sentou-se ao lado da janela da cobradora que, vendo que o tipo não estava lá muito bem, perguntou:
-Tá tudo bem, moço?
Júlio assentiu com a cabeça, mas era só por educação, porque, de fato, ela não poderia ajuda-lo muito. Ele fez o possível para disfarçar, mas as dores aumentavam numa proporção ad absurdum. Nunca tinha se sentido assim e era duro ter que admitir isso para si mesmo. É bem verdade dizer que não somos mais os mesmos quando nos defrontamos diante do espelho de nossos próprios medos e vergonhas, e o medo de Júlio era em parecer ridículo, mesmo que soubesse que não era a primeira pessoa no mundo a sentir-se assim; inúmeros casos de pessoas que sofreram acidentes cardiovasculares em coletivos, muitos deles com óbitos, são registrados pela nossa imprensa, quanto mais passar mal, mesmo que se esteja pondo as tripas afora. Mas neste caso era o fôlego, Júlio era hipertenso.
Quando o ônibus parou, pediu para descer pela porta do meio. A rua estava escura, deserta; o vento gélido da noite fazia-o tremer de frio. Se bem fosse noite e a via estivesse bastante sombria, Júlio achou melhor assim. Sua agonia aumentava a cada minuto e, infelizmente ainda teria de subir uma pequena ladeira até chegar a sua casa; não era muito, mas vendo a situação... Bem acertados estão os físicos em dizer que tudo é algo em relação à... Júlio soltou um sincero palavrão e iniciou a subida do seu purgatório.
Passemos para uma rápida descrição: naquela noite a lua não brilhava no céu, isto é, era lua nova; devido ao bairro ser uma zona de periferia, mais da metade dos postes estavam quebrados ou funcionando mal, o que deve dar ideia do quão escuro estava. Beirando a margem esquerda da rua, havia uma grande mata, a qual as pessoas chamavam de sítio da viúva, e da qual se ouviam vários relatos cavernosos. Resumindo, ao que parece tudo estava preparado para o que viria a acontecer.
Cambaleando, Júlio fazia todo esforço que podia para chegar ao seu destino, mas o tempo corre lento para os espíritos em ansiedade. Ele sentia como tivesse subido durante horas, ofegante, sente a necessidade de parar e percebe que ainda não passara nem da metade da ladeira. Em vão, tenta levantar-se mas já não pode com as dores. Num surto de lucidez, Júlio dá-se conta de que não aguentaria mais e que em breve teria que render-se e entregar-se ao devir. Olhando de um lado para o outro ele percebe que está chorando: “por que aqui? Por que logo aqui?” se tão ao menos pudesse evitar ou tornar tudo menos vergonhoso, não importa o quanto evitemos, cedo ou tarde teremos que nos render à lei da vida.
Ao sentir um vento gelado, Júlio reúne o último que lhe resta de suas forças e dirige-se para dentro do sítio da viúva com o intuito de tornar sua situação menos dolorosa. Vá lá que o ambiente não fosse dos melhores, que tivesse fama de esquisito, mas todo lugar era melhor do que estar à vista de todos. Sentindo uns resquícios de forças ele consegue pular um baixo muro e dirigir-se a um lugar mais seguro. Começa a chover. Júlio arrasta-se para debaixo de uma mangueira. E espera. Sabe que agora só uma coisa o aliviaria. E, debaixo daquela mangueira, um monte de imagem veio pela sua cabeça. Sabendo disso, só lhe restava esperar o seu único alívio. Foi quando sentiu os músculos enrijecerem e uma agonia cortante pelo corpo todo, e algo saindo de si. Era o fim de tudo.
Depois de limpar com uma folha de bananeira, Júlio resmunga alguma coisa e levanta-se. Dá uma olhada paro o bolo fecal ali no chão e pensa: “Tanto dias para ocorrer isso, mas logo numa sexta, é uma merda mesmo!”. Resumindo. No final tudo acabou bem.

Canto da velha senhora


Canto da velha senhora


Sou Maria Teresa

Das Neves Provença

Do sertão do Ceará

Não sou velha nem sou moça

Mas tenho somente a força

Daquilo que Deus me dá


E vou vivendo...


E assim cantou Maria Teresa

Sentada no seu velho tamborete

Até o dia em que morreu

De velhice aos noventa anos de idade.

Reflexos perdidos na cidade


Reflexos perdidos na cidade

Toda cidade é um movimento só

Um pêndulo só

Um desvario só

Que se incrusta na pele

Nos lábios, pulmões e alma...

Mas que, por onde andarmos

Nos dá a entender que

A vida se mexe

E se mexe por haver

Mesmo nos desencontros

Um outro tipo de encontro,

O da solidão e o da mágoa

O de uma alegria e de uma tristeza

Ou de nós mesmos

Diante dos diversos espelhos

E vitrines das nossas emoções.


São reflexos esparsos

Mas que permanecem tão intactos

Que ao todo

Chegam a ocupar espaço


Onde estão os vazios?


Um pedaço de mim ainda te espera

Um pedaço de mim ainda te espera


São seis horas da manhã

Lá fora o barulho dos carros

Mistura-se ao que resta da ventania

E ao piar dos pássaros.

Faz tempo que surgiu a aurora

Um vento ainda gélido

Entra pelas janelas do nosso apartamento

E invade como quem se pede

Mas ao mesmo tempo se oferece

Num holocausto concebido pelo

Despertar dos corpos em transe...


Sabemos bem que temos que nos levantar,

No canto posterior da vivenda

Piados compassados do despertador

Chamam-nos num convite à vida

Que se desentranha lá fora

Como se fosse parte de nós

E na verdade o é,

Nem tudo é silencio na grande metrópole sonolenta.


No chão de nossa casa

Vejo nas cadeiras os restos

De uma roupa que tiramos às pressas

- meias, saias, cuecas, gravatas, lingerie –.

E um pouco de mágoas,

Talvez somente ansiedade


Enfim, destrincho diante dos meus olhos

Um pequeno gesto de doação fugidia

E grandes pedaços de arrependimento:

A que horas te foste, por onde andas?

Sento-me na cabeceira sem mais porquê

E vejo a rua pela ventana principal.

Os carros tecem-se em teias de aranha

De um abismo no asfalto,

Mas que, por seu movimento,

Devem ter algum encontro...


Então acho que devo esperar,

Por algum motivo este vazio

Me traz a certeza de tua espera

E dos desejos que juramos

Numa noite destas...

Então espero

E continuo a esperar

Até sentir-me segura

E ligar-te pra desejar bom dia.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Homenagem a Deyse


Ainda que eu usasse todas as palavras do dicionário,
todos os vocábulos estrangeiros, dialetos, línguas artificiais,
ainda que eu inventasse milhares de palavras
verbos, orações subordinadas, sintaxes, objectos..
mesmo assim nao poderia exprimir o signifcado
de tua presença em minha vida...
é algo que não se define mas existe porque tu existes
e és o que és, não o que a semantica linguistica define
como lexico dentro de um contexto... e sim
porque es a minha amada real, de carne, osso e sentimentos.
Como uma flor singela, ou melhor, como tu mesma.
Te amo

terça-feira, 15 de março de 2011

Alma sonhadora




Basta uma lembrança
pra te trazer de volta,
basta uma mirada
pra te ter aqui,

Basta um pensamento
e tudo se refaz
basta estar triste
pra me lembrar de ti.

Por que estás aqui ainda
por que insistes em estar
por que tudo é tão só
se tão somente não estás?

Por que te foste
e ainda ficas?
Por que não vais
sem deixar rastros
por que a vida
nos deixou uma lágrima?

Por que esta lágrima
é tão difícil d'enxugar?

Nós dois


(Para Deyse Cristina)
Deixa que os sonhos
se reflitam na água
E que a beleza
se espalhe nas ondas
para que o tempo
leve avante
o desejo que temos
e que a distância
que nos separa
seja a que um dia
haverá de juntarnos

Passageiro




Nele está
não a beleza
do estar cá

nele está
não o querer
estar,

Nele está
o belo agir
da partida

Nele está
a beleza
da despedida

Nele está
a esperança
do encontro

Nele está
o início
de um conto

Nele está
o abraço
quando chega

Nele está
o abraço
quando parte

Nele está
o poema
pela metade

Nele está
o ponto
de partida

Nela está
uma ânsia
sentida

Nele está
um frio
na barriga

de quando
não se sabe
pra onde se ir.

Nele está
o desejo
ambíguo

Nele está
o estar
partindo

Nele está
não a beleza
do estar cá

e sim
a beleza
de passar

Cansada


Cansada

O que querias de mim
tu quando partiste
deixas-te tão triste
o peito por ti?

O que querias de fato
quando a partida
deixou esquecida
os beijos e abraços?

Queres render-me
deixar-me aturdida
na noite calada?

O queres ater-me
na ideia maldita
de quem está cansada?

Plano secreto




Plano secreto

Tenho um plano secreto
para te fazer suspirar...
Plano que homem nenhum
sonharia encontrar
Tenho-o desenhado aqui
nas linhas do meu corpo
nos gestos de minhas mãos
no balanço do meu dorso...
Para te prender a mim
e somente assim
não te deixar escapar...

Nietzsche uma vez falou
que as mulheres são perversas...
mas por quê?
Que pecado tem em te querer?
acaso resistes aos meus encantos?
Se não é isso que desejas
por que teu olhar me cobiça?

Não, não é pecado
um pouquinhho de sedução
nunca fez mal a ninguém.
Então vem agora, já
que meu corpo
ja preparou sua estratégia
para te receber como amante...
pra que dentro, intimamente
carnalmente nós dois...
façamos uma briga de amor.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

À tua espera


À tua espera

Se não me encontrares
procura-me no vazio que deixaste,
nas tardes sozinhas em que fiquei
desolada à tua espera...
procura nos pratos sujos
da nossa ultima janta
que, de tanta dor, ainda não lavei...
Procura nos copos quebrados,
nos paredes mofadas de tua ausencia...
Quiçá lá vejas que lá fiquei...
Procura ainda nos versos que te dediquei
os quais não quiseste mais ler,
procura no violão desafinado
encostado no canto do quarto
sem música, sem melodia ou triste som...
Procura nos espaços vazios da sala,
nos lençóis que que a traça roeu
nos travesseiros que fedem a lágrimas...
Procura, procura mais uma vez se tu queres...
Verás que no vazio de nossas vidas
hão de ficar as ruinas da nossa casa caindo aos pedaços
e o resto de mim que ainda ficou te esperando

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...