quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A menina invejosa

Uma outra, invejosa,
morava no vilarejo,
pra imitar a menina
quis fazer o mesmo feito.
Saiu pela madrugada
aproveitando a lua cheia
escondida baixo a roupa
a peste duma corneta.
A invejosa sentada
esperou que aparecessem
os lobos pra que ouvissem
a música da corneta.
Depois de umas três horas
os caninos por fim vieram
um tanto que desconfiados
daquela estranha cena,
mas a outra com um sorriso
leva aos lábios de repente
e enchendo as faces rubras
toca o seu instrumento.
O sonido se espalha
na escuridão da floresta
fazendo voar as aves
e escapar os morcegos.
Os lobos gritam alto: "Para!
Que zoada da mulesta!
Fica ai toda exibida
com a bosta dessa corneta!
Eu ja tô que não aguento
ter que ouvir essa peste!"
E os lobos atacaram
a menina encrenqueira.
Não quiseram devorá-la
"E quem quer essa tranqueira?"
Coisa ruim se joga fora.
Aprendeu, sua danada,
como é feio ter inveja?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A menina e a flauta

A menina à beira do rio,
beira do rio onde estava,
sozinha ao som das folhas
vestida como de nada,
pobres trapos, pobres vestes,
velha flauta afinava.
O vento frio, noite densa,
fazia tremer a carne,
vento a gelar em volta
e os olhos cheios de lágrimas.
Na moita verde, tão verde
os lobos a espiavam
sentindo o cheiro pueril
co'as bocas insaciáveis.
Com as mão trêmulas ergue
a flauta para os lábios.
erguendo à noite vazia
um canto rouco, cansado.
Quase não se ouvia a lira
do cantar pobre e fraco,
só os lobos escondidos
que a presa espreitavam
detiveram-se um pouco
ao som que os assustava.
Mas veio um vento moreno
que de norte a sul andava
parou-se na pequenina
para poder escutá-la.
A menina então sentiu
na presença de um estranho
alguém que ao som da música
fazia as folhas dançarem.
E tocando a flauta rouca
já não temia a mais nada,
nem ao escuro da noite
nem aos lobos que a cercavam.
E então tocou, tocou, tocou
até cair de cansada...
e as feras foram embora
guardando silêncio grave.
Quem te ninará pequena
no silêncio das montanhas?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O naufrago

Aquele homem
pedia esmola na rua
e ninguém o ouvia

só isso...

Aquele instante

Sabe aquele instante de silêncio
que a gente tem depois que amamos...
Aquele momento em que calar
faz com que a gente aprecie melhor
o sorriso de satisfação no outro...
 O momento em que apenas os olhos
se beijam docemente... delicadamente
felizes em ter desfrutado do carinho,
do afago, das palavras maliciosas...
e da companhia carnal, presencial
e é claro que sim, sexual do outro...
Sim, aquele momento que só é possível
quando há sentimento

Então eu penso que também a música
tem seus silêncios...

Retrato

Que tal um beijo?
Um abraço gostoso?
Que tal um cafuné,
uma palavrinha
sussurrada ao pé da orelha?
Que tal um pouco mais de nós
e que tal mais pouca roupa?

Sim, é isso que eu digo...
às vezes me visto de cinza
e meus poemas são por vezes tristes,
mas eu não deixei de ter em mim
a vontade de estar em ti...

Não... não julgues mal!
Sou feminina o bastante
para te seduzir...
como um nu em preto e branco.

Sim, são duas partes de mim...
uma pra dentro do que sinto e penso...
outra pra fora que são só sorrisos.

Todas nós somos assim...
Por isso tu que me lês
e sabes bem quem eu sou
não aches que quando estou triste
eu vá permanecer triste...

eu posso sorrir de novo!

Mas também posso zangar-me,
emudecer, cair a cadência dos versos.
Ser mais obscura. Posso odiar às vezes...

mas sendo alegre ou triste
serei sempre aquela Sophya
dos olhos altivos...

os mesmos olhos vivos
e que por isso choram
e que por isso riem...

A poesia é o meu retrato, se não do meu rosto, pelo menos daquilo que se passa em mim. Poema sincero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A chegada

Quando voltaste pra mim portas adentro,
ao longe vi tua silhueta pela ventana.
Confesso que o peito pulsou e eu tive ganas
de abraçar-te e levar-te para dentro.

"Mas que é isso!" pensei febril, humana...
Por que teus anseios ainda me comovem
por que teus versos em mim se não dissolvem,
mas perduram nesta emoção assim insana?

Tive vontade, sim, eu sei e confesso.
Mas em meu poema não cabe teu verso
e minha vida sem ti mudou de centro.

Então te recebi serena, mas fria
e te presenteei esta última poesia
quando voltaste pra mim portas adentro.

domingo, 18 de agosto de 2013

Última luz

Não me deixes só, meu bem...
sofrer sozinha esta cruz
que já se foi a última luz
e o último verso também.

Escuridão vem e reduz
a medos as coisas mil
e esconde, por ser vil
toda a obra que cá compus.

Ah, delíquios meus d'agora!
Por que insistis nesta hora
em surgir estando eu triste?

Mas ao cantar canto derradeiro
hei de lembrar no verso inteiro
à escuridão que a luz existe.

Gratidão - Série sentimentos

- A criança segurava um mini presépio com tanta alegria que deu vontade de escrever isto!

O que se tem não é muito,
mas é o bem mais precioso.
Sentir-se bem sem ter tanto
e construir em tão pouco.

Mesmo que haja maiores
alegrias e mais sonhos.
Sonhar o seu que existe
e não o sonho dos outros

é o maior bem que se tem.
Aínda que o verso não soe,
é bom que seja assim mesmo,
tímido com a voz rouca,

mas que pode acalentar-nos
só por existir e pronto!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Tensão - Série sentimentos

Havia furor nos olhos
quando dela as lágrimas,
pediam que calassem
a dor que nos causa.

As mãos sob o queixo,
sabiam que suportavam
os suores frios d'angústia
do medo, talvez da raiva,

Assim as imagens contam
de ações sem palavras
desesperos de homens
que ainda possuem alma

Mas calemo-nos nós
para não calar o retrato.

Esperança - Série sentimentos

Uma certeza de cura
quanto maior a ferida.
A mais perfeita morada
é a casa em ruínas.

A falta de pão na mesa
torna melhor a comida.
E a face mais radiante
vem daquele rosto triste.

Os homens tem essa força
motora que os incita
seguir sempre adiante
mesmo quando impossível.

Pois é no branco da neve
e no inverno mais frio
que no brilho das geleiras
que o verão se anuncia.

Soneto bêbado!

Se te não vejo, sofro calada
o sonho da tua ausência
por isso que em essência
olho a mim e vejo o nada.

Será saudade, demência
Essa falta que me falta?
A dor que fica e salta
afeta o todo e a vivência...

Estou bêbada e eu sei bem.
Todas as vozes saem sem
um fluxo lógico, verdades.

Ah, chega! Melhor calar-me,
grito pra não suicidar-me.
Deixa, são só soledades!

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...