quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Painel


Painel

Certas dores são sós
assim coma certas angústias
que aprisionam a alma da gente,
mas que no entanto,
fertilizam, se enraizam, crescem
tal qual o tamanho de nossa solidão
e o desejo que temos de fugir/resistir
a tudo que nos cerca e aborrece.

Certas dores também são sós:
uma lembrança; um reflexo,
um ente querido, um elo perdido,
as emoções infinitas no peito:
tão plurais dentro de um único tórax,
mas que doem como um todo.

E são também sós os olhares,
principalmente cada um separadamente.
Todas as combinações fotogâmicas,
todos os prótons e elétrons estatitizados
e todas as angústias dos homens
gravadas para sempre numa fotografia
na parede empoeirada de uma sala de estar.

Todas estas coisas
com todos seus marasmos
e solidões pulsantes... enfim
tudo isto, seja o que for,
acabam aparecendo um todo complexo
o qual tentamos ignorar
sem saber porquê...
Mas que ao reamontoar todas as peças
nos damos conta/ percebemos que
só e únicamente, carregamos uma realidade só!

Por que?


Por que?

Por que rompeste o encanto;
esvaziaste nosso armários
e guarda-roupas, livros caros
cheios de poeira e pranto?

Por que me alegraste tanto
se sabias que ta adorava
de um querer e paixão rara
- de um fervor de dar espanto?

Por que abandonaste a mim?
Por que aceleraste o fim
e fizeste do amor mágoa?

Por que não voltas e me abraças
e, juntos, limparemos a casa
de toda tristeza, dor e mágoa?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poema de natal


Poema de natal

Que hoje essa criaça nasça.
E que, nascendo, germine.
Que germinando, venha a brotar
e que, brotando, brilhe...

Brilhando, ilumine as incertezas.
Mas de um brilho que não fira...
Mesmo que muitas verdades firam,
essa verdade nos ilumina...

E é mais real que tudo que brota,
é mais substancial que todas as dores..
e se sente em tudo e em todos...
Basta que a criança nasça

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A dança da bailarina


A dança da bailarina

Um palco vazio...
Um verso sem música
um afago negado:
as emoções sem laço
(Entra a bailarina)
Dançando
a música ocorre
em suas pernas
feitas de poesia
e arte...
(Ela gira)
Seu voo parece real,
e em verdade
ela esta voando...
o show não pode parar...
(No chão)
Não foi queda
foi retração
da fênix incendiada
que vai arder em seguida

enquanto o sonho não parar

Pelos trilhos


Pelos trilhos

Ando a caminhar
por vários caminhos
afinal de contas
sou mulher
e quero um destino.
Um destino, por exemplo,
o de cortar as distâncias
e deixar para trás
aquilo que voltarei
a visitar.
Ter saudade do que tive
dos caminhos, das estradas,
das paixões e emoções
que eu hei de encontrar
ou que talvez eu crie
só por gostar...
Andar por cima dos trilhos,
em uma direção inexata
sem ponto de chegada...
Andar porque quero um destino
que não seja projetado
- uma flor silvestre
nasce ao acaso e é bela -
Por outro lado
não ando a andar sem chão,
o trilho, mesmo sem fim
me dá uma direção...
da qual não sairei
pra não cair...
Sigo andando
porque é longa a viagem,
mesmo sendo curta,
mesmo que termine agora.
Sigo andando porque,
andando, tenho certeza
de que sou o que sou
e que posso amar
e posso gostar de amar!
Enfim, andando na linha...
mesmo que seja a corda bamba,
ainda assim é uma linha:
bela porque é o limite.
E sigo andando
pelas estradas da vida.
Que quiser me seguir
seja bem-vindo!

Onde estão os diabinhos?


Onde estão os diabinhos?

Que vontade é essa
que me dá quando foges?
Que me dá quando o verso
não quer fluir ou cantar?
Que desejo é esse
que nos toma de repente
e nos enlouquece sempre,
faz sorrir faz chorar?

Quem é que me atiça,
cujo canto realiza
e me faz suplicar?
Quem é que me inspira, enfeitiça,
faz arder a chama
essa vontade louca que há?

É o verso, é a prosa,
é a música ou devoção?
Ou é efeito de drogas,
de bebidas ou algum vício
sem catalogação?
Afinal todos temos um.

O que é então tudo isso
que escrevo sem dar por mim?
É de Deus, é do capeta...
ou são devaneios da Sophya
que quer apenas ser lida
compreendida ou nada disso?

Quem tiver a resposta,
por favor me comunique.

Milagre no sertão


Milagre no sertão

Milagre!
Acudam todos...
lá na penha do rosário,
onde nem jurema ou catingueira
tem vaga na terra diária,
aconteceu de nescer enxerida
uma fulô no meio da pedra vaga!


As nuvens

As nuvens parecem algodão
quando desenhadas a planar,
tal qual riscos no papel crepom:
ou até doce de algodão...

As nuvens desenhadas frágeis
parecem com sonho de criança
erguendo-se tecido aéreo
que levemente se levanta

mas que são apenas vapor
de água que sobe por si só.
Mas que a criança os desenha,
faz do vapor nuvem de algodão

Porque o belo no que existe
é desenhar a vida em volta...
mesmo que tudo seja água,
o sonho sobe gota a gota.

E pode ser forte e pode ser frágil

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Fogo, palha e lenha


Fogo, palha e lenha (II)

Lá onde o sereno molha
e onde é verso o silêncio
das estradas e dos campos,
uma faísca surge num momento,
pedaço frágil de encanto.

Por sorte dela cai uma folha
que ao tocá-la logo entesa
a chama fulgaz primitiva
poema feito na natureza,
poema em chama viva.

Por mais sorte ainda, a folha,
incendiada, cai por cima da palha
e em seu âmago seco explosivo.
Que logo que se vê provocada
desata-se em calor radiativo.

Calor esse que agora
a simples faísca presencia
que nem se lembra de sua origem
pingo apenas de energia
potencial, só de vertigem.

Mas essa chama quente toda
foi tão fulgaz quanto arrasadora,
Extinguiu-se num só encanto
sob sua fúria assoladora
mas que, no entanto

esqueceu-se de olhar em volta,
ao um pedaço de lenha encostado
que apenas presenciou toda a cena,
mas que findo agora o espetáculo
quer o fogo não extinguir seu poema.

A lenha não entra fácil na roda.
Nela a combustão é mais preciosa,
coisa que o fogo em seu desejo
tem que lutar de muitas formas,
e não com a força do lampejo.

Mas a lenha, mesmo rígida toda,
é tão fêmea quanto a palha extinta.
Nela, se não há leviandade,
a ardencia também a atiça,
e seu discurso em liberdade.

E num momento os nervuras,
o gestos contidos em prosa lenta,
se renderão ao discurso que arde
nas portas de seus alentos...
E o fogo fará com sua arte

de arder a si mesmo e a todos
que os desejos se possuam,
se penetrem corpo a corpo

Coração de pedra


Coração de pedra

Tens um coração de pedra,
pedra tal qual a sua textura,

pétreo que por ser conciso
pode moldar-se, mas não muda

essa natureza que te faz
de todas as formas única:

natureza que só em teus gestos
existe feminina à tua altura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poema das espessuras


Poema das espessuras

Espesso
Espesso porque um poema é espesso
Espesso porque ao escreve-lo
o poeta se sente espesso,
Espesso também
porque tudo ao redor é espesso.
Espesso porque é espessa a vida
e o sentimento que em roda há.
É espesso porque também
é espesso o intragável:
é espesso porque a fome é intragável
porque a miséria é intragável,
porque o mundo gira e é intragável.
É espesso porque a lama é espessa
e fertiliza a miséria de todos os mocambos.
É espessa porque também é espesso o sangue
que derramamos todo dia quotidianamente...
Espesso porque suamos frio,
é espesso porque o suor fede
e fedem os cães e fedem as fezes
e fede tudo que é espesso...
É espesso porque este poema fede
e não sabemos a causa de sua morte.
Mas a morte também é espessa,
com sua carroça a cortar o tempo,
e a ceifar-nos sem medida, irmanamente.
É espesso porque o tempo não pára e é espesso
com seus segundos nos matando...
É espesso porque também todas as alegrias são espessas
e nos unem num momento de comunhão divina.
É espesso porque o divino é inalcançável
e o inalcançável é espesso.
Ah, mas é espesso porque o próprio homem é espesso,
porque o homem precisa de uma mulher
e porque a mulher é um ser espesso...
e também porque toda forma de amor é espessa,
ligada, viscosa como uma grande mucosa espessa.
É espesso porque o coração é espesso
e porque o coração está na mente
e tudo que pensamos é espesso.
Tão regurgitável como um vômito espesso
que lança fora nossas paixões-entranhas,
é o mundo grande a rodearnos sempre
com seus tentáculos ditos humanidade
e com seu cheiro de morfo espesso.
É finalmente, é espesso porque estamos no mundo,
e o mundo está no sistema,
e o sistema numa galáxia,
e a galáxia está no universo
e o universo é espesso!

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...