quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estou a seguir-te


Estou a seguir-te.
Por que tu foges?
Se tu bem sabes
que a seguir-te
hei de ficar
por muito tempo.

Estou a seguir-te.
E tu não paras
nem pra trás olhas.
Me deixas cá
confundida, aturdida
sem me notar.

Estou a seguir-te
por que não notas?
Por que não voltas?
E me fazes feliz
como eu sempre quis...
como antigamente
que dizias de mim:
"Estou a seguir-te"

Estou a seguir-te.
Pisando o chão
onde tu pisaste;
Chorando a lágrima
que provocaste
Desvanecendo
por causa de amor.

Ai, solidão,
por que me acompanhas?
E me segues assim?
Deixa-me seguir
àquele que eu quero.
Seguir até me cansar.
Até por fim expirar
desse paixão doentia
que não quer passar...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


A barata

Franz não parecia acreditar
quer fosse mágico ou real
que a dor dos homens começa
quando a falsidade da áura
se camufla friamente
na dor sentida de um inseto
que tenta ser homem sem sê-lo
que tenta provar o que não pode...
que tenta voltar a ser
aquilo que não tem certeza
se realmente o foi...

O relógio


O relógio

A primeira coisa que lembro
é que nasci contando...
Coisa que fosse magnética
metal por dentro soando...

Coisa que fosse só coisa
uma peça, utensílio doméstico,
mas que era sempre observado
por operários e médicos...

Coisa ou metal coisificado,
lembro que uma essência tinha
a qual todos se juntavam a ver.
Não sei se a mostra ou escondida.

e sei que andava por pulsos,
outros vi pregados em paredes
outros adornados e vaidosos
E alguns amarrados em correntes.

Nunca soube pra que servia,
só sabia que algo em mim pulsava,
como um coração, mecanizado
que de vez em quando parava...

Foi nessas vezes que, parando,
me descobri lexicado máquina
pois que paralisado o meu pulsar
trocava-se uma peça e mais nada.

E o que era que havia em mim
que todos me olhavam de repente
e sempre, como que um deus?
Uma vez alguém disse: Tempo.

Pensei que tal era meu nome
porém outros diziam horas,
e outros só me apontavam,
para ver-me em pessoa...

Bem, eu era coisa, eu sei,
mas não entendo até hoje
o que há em nós Relógios,
este cá que é meu nome,

que as pessoas nos olham tanto.
Será um magnetismo tal
que atrai olhares alheios,
ou uma característica sem par

Ou será algo relacionado ao pulsar
que tantas vezes escuto sempre
que acontece todos os dias,
é isso que todos chamam de tempo?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


Retratos falados

PRÓLOGO

O olhar pra ter sentido
é um jogar com a visão
onde o sujeito, por dentro,
descreve toda a armação

É um jogar com o que existe
real por fora, ocorre dentro,
mas que muda com a releitura
e continua igual ao mesmo tempo

Sendo como é: um jogar,
muitas vezes o real varia,
ou varia o que ocorre dentro,
mundo ideal que se assimila.

E a realidade assim dita
toma de empréstimo adereços
que a vestem para entrar
na rua de outro endereço

e como por caminhos novos
a perder-se, a vida real, fora,
passa a conduzir-se maleável
a permitir-se nova forma

Que é o real mais exato
que só ocorre quando impressiona;
quando a língua lhe dá molde
a máquina interna funciona

RETRATO A

Como descreve-la assim de lapso?
ou como dar-lhe forma fidedigna?
Ter que rebusca-la é difícil
quanto mais descrevo, menos aproxima

dar-lhe-ei entretanto
o desenho de seu jeito e essência.
É alta como uma palmeira alta
a impor longe sua presença

mas que tem nos olhos castanhos
o imponencia de um coqueiro,
mais vivo que o verde palmeirense,
pois são doces, frutos seus, caseiros

E tão qual seu comprimento, altura,
são seus cabelos a descer-lhe
pelas espáduas como a alisa-la
qual duas mãos a percorrer.

É também branca, caucasiana,
cor de luz como a aurora;
É branco também seu sorriso
aberto de fora a fora...

Vendo-a parece frágil, franzina,
nos gestos com que se cobre,
mas não se engane com a imagem
de menina que comove...

Ela é antes fera que presa,
tal como leoa uma dormindo
mas que quando incendiada
provoca espanto e alarido.

Espanto que nos espanta,
com louvor, deixe-se claro,
que só ela assim provoca
tamanha forma, feitio raro.

RETRATO B

É difícil lembrar de tudo.
Foi há muito, como sabe,
é como descrever em névoas
engana-se com facilidade.

O que mais me lembro é das mãos
que eram grandes, musculosas
como as mãos de um urso,
ou ursa, pois eram zelosas

Também me lembro da risada
que era forte como um rugido;
ele tinha a voz grave. é claro
devido ao tempo ja vivido.

e tinha bigodes também, brancos.
não sei se eram fartos ou ralos,
sei que os tinha e somente isso
e que morrera de algum infarto.

RETRATO C

Como não lembrar-se,ou
como esquecer facilmente
de quem deixou uma cicatriz
que inda está latente?

Vejo-o como se fosse hoje
e esta tal é a sua feitura:
tinha o rosto doentio
como é assim a angústia

e era pálido, albino como se diz,
olhando-o parecia de gelo
com os olhos vidrados em nós
olhos da cor do medo...

que, paralelos à sua tez,
ardiam como brasas fumegantes.
E como eram sem vida!
Porém como eram gritantes!

Talvez visto na rua
fosse um ente normal
que a vê-lo sentissemos pena
e que pudéssemos amar,

mas tal qual a onça faminta
cujo charme rodeia a presa
para depois despedaça-la
fica sua imagem retesa

associada ao nome trauma,
que se associa ao nome morte
e ao fenômeno tristeza,
o casamento de mais sorte.

Pois este nos seguirá sempre
não importa o quanto se viva
enquanto durar esse vazio
mais à sua memória se associa.

Retrato D

E sim, ela era estúpida
com cara de sonsa mesmo!
Não sabia fazer nada
e nem queria aprende-lo...

Gostava era de dormir
com aquela boca escancarada,
que mais parecia a de uma porca
que carecia de maçã para fecha-la.

E roncava, Deus, como roncava!
fazia ressoar toda a parede
como o barulho de um motor
oculto sob todo aquele

imenso corpo balofo e gordo.
E ainda era vaidosa, digo
que tinha seus caprichos.
Que educação teria tido?

Bem, não sei ao certo.
O que sei é que incomodava
e que não dava mais certo
e que com ela eu não ficava.

E só pra não dizer que
eu não a elogiei em nada:
ela tinha a letra bonita
de dondoca mal amada.

RETRATO E

Ele batia na gente...
ainda mais quando bebia.
Às vezes fazia umas coisas feias
que a gente não entendia.

Mas na época era só estranho,
hoje, eu não sei como chamar.
Quando eu lembro dos olhos claros
a daquela voz a me gritar

sobe como que uma angústia
um medo. Mas não um ódio.
De certa maneira eu gostava
quando ele me punha no colo.

Gostava do seu cabelo negro,
achava-o o mais alto do mundo
e ele era um pai amoroso
Ja a bebida é outro assunto

Só quando bebia mudava.
Agora não sei que imagem dar:
a de um pai alcólatra
ou a de um alcólatra pai.

RETRATO F

O meu filho era bom
rapaz direito trabalhador.
Só porque fumava um troço
a polícia veio e matou.

Não fazia confusão com ninguém,
bebia com os amigos na dele,
Magrinho que só você vendo
mas disposto que só ele...

Mataram por ruindade mesmo,
eu sei que ele não era errado,
só gostava de sair a noite
e ás vezes voltar embriagado

Ele fazia bicos, servicinhos
pra ajudar na sua casa
E ganhava muito dinheiro
mas sempre tudo gastava.

Agora ele se foi, ta ai a foto.
Ele era um filho muito bom,
mas isso não o trará de volta
só pra dentro do coração

EPÍLOGO

Assim como um mosaico
a juntar-se em várias partes,
os olhos que captam a imagem
escolhem o feitio a dar-lhe.

E assim na peças escolhidas
uma a uma um todo formam.
E o universo fora, real por dentro
o motor da vida impulsiona.

Motor esse a funcionar
mas que não é mecânico,
motor que palpita dentro
a máquina ser humano...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Olhares


Olhares

Cá me encontro, tu me vês
caída como um anjo caído
que machucas e não o vês
o deixas só e sem sentido
e assim de vais
pra nunca mais
sem nem meu pranto notares
apenas uma questão d'olhares

E cá eu fico, somente triste
sem saber o que eu te fiz
ou a razão por que partiste
e me deixaste tão infeliz
que só eu sei
o que passei.
Mas falta tu reparares
apenas uma questão de olhares

E por que te vais novamente?
E me deixas jazer esquecida
como um capacho somente
que te traz mal a mal dormida
e fica assim
e é o fim
De todas as esperanças a dares
as tuas questões de olhares...

Mas vai-te embora, parte
que a dor ja muito lateja
e ficar só me dará alarde
estejas tu onde estejas
há de ficar
o teu lembrar
que me dizia aos pares
amor é uma questão de olhares

Tu foste embora e eu fiquei
sem rumo ou caminho próprio
nem sei se te esquecerei
tua carne foi como ópio
algo vil
me destruiu
uma doença a sarares
sem haver questão de olhares

Vestido de noiva


Vestido de noiva

Olhar para sua figura,
toda em nupciais dada,

que mais parece nuvem
todo esse ar que exala,

faz com a gente sinta
um desejo de abraça-la.

Porém mais que abraço
é o enlaço que se busca

laço que todo o pano
trará ao que se debruça

a ânsia de possui-la toda,
faze-la fêmea agora sua

trazer após a cerimônia

os olhares de convite


desfazer-se do pudor
e dos desejos embutidos

olhá-la agora como esposa,

ver-se a si como marido

para depois de desalinhar
num primeiro ato de assédio

aquela que te esperava
nos degraus do magno prédio.

E depois acha-la mais bela
que toda a roupa que usava,

acha-la mais confortável
assim mesmo sem nada...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Construção cabralina


Construção cabralina

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Quis escrever-te como
mão alheia que te pinta;
Sem ser meu no entanto,
mas cópia feita em vida

Quis desenhar-te casa
na qual se habita
sob teto de encomenda
tal palavra assim escrita

Fazer da geometria alheia
o metro que não possuo
As medidas inconcebidas
insonhadas num futuro

que tal desenho hodierno,
se faz olhando as coisas
não sentindo-as, vendo-as
traz à mente imagens moças.

II
Esse desenho inconstruto
não é algo que digo meu,
faço-o, tal qual decalque
duma lira muda de Orpheu

Estéril de intelecto altivo
das emoções palpitadas,
são apenas pulso hipnótico
duma imagem comparada...

Tal pulso a pulsar, o pulso
destas formas cerebrais
dá-me a ver o meu carma:
Aquilo que em mim há...

Não sou tão áurea, poeta
por isso tento te construir
n'algo que me projeto
a mim mesma a seguir...

Uma escrita construta,
mas tão alheia e árdua
que só me resta entender
o metro de tua estátua

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amor de vísceras


Amor de vísceras,
não de alma
o amor demasiado...
Amor real, ao quanto
se pode ter com
todos os sentidos
e especulações
Amor de carne e osso
com pulmões, vértebras
e braços...
Amor com fronteiras
sem pulos ou voos
Amor mais real
que todas as declarações
de amores que se tem...
Amor com limites,
com ânsias e com raivas,
Amor às vezes sólido
sem mais nem menos...
Amor às vezes pobre
como uma mesa
e duas cadeiras
Mas enfim,
amor de homem
com uma mulher
Não de dois anjos
ou semi-deuses
mas amor real
de carne e osso...
com glândulas, hormônios
e sêmen... amor
que é a vida em si ocorrendo
antes de toda a metafísica

Pra que metáforas?
amemo-nos assim mesmo,
como sempre foi...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Viva Santa Bárbara!

Caia na calçada
como a tarde caia
nos espelhos dos edifícios.
O homem caia na calçada
calcando os pés
para um abismo raso
bem próximo da morte
Caia na calçada
como um pingente
que se perdia
e rolava por água abaixo.
Todos os sonhos por terra;
todas as horar ardendo
como açoites nas costas dos negros;
e as esperanças, desejos, canduras?
Passaram de repente
como uma promessa esquecida...
- Como um final triste de novela.
Caia na calçada
o jesto, a dança, a ginga, o teatro
( Se é que se podem dar nomes! )
Caia na calçada
não os esforços de um homem,
mas uma comédia humana
representada por aqueles
que viram, ouviram e sentiram
sua queda do alto, das nuvens...
outros disseram que foi do álcool.
Caía na calçada
sem eira nem beira
como um trapo velho
que se joga fora
ou como a prostituta apaixonada
que possuimos pra ter asco
depois de uma noite da amor.
Caia na calçada
o choro de uma mãe,
a velhice de um pai,
a esperança de um filho...
Caia na calçada
( agora cheia da gente )
uma última réstia
do sol na cidade,
E tudo parecia tão mágico!
Veio uma chuva:
depois a noite
com seu quê de luxúria;
depois mais nada...
Os cacos no chão
pareciam gritar, exclamar
e os homens, esses seres inúteis,
pareciam apenas olhar.
Era tarde demais
a promessa que caia na calçada
agora não se levanta mais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempestade

Queria encontrar-te hoje
abraçar-te em meus braços
Ninar-te como meu menino
quando tens medo de ficar só
Queria ter-te comigo
agora que a noite é sombria
e que o vento me sacode
e me traz tua lembrança
Queria estar aos teus pés
venerando-te como a um deus
ao qual fantasiamos nas nossas
carícias sagradas...
Queria dizer-te o que te repito sempre:
Que te amo, te adoro e te quero.
Mas ao mesmo tempo
sinto essa distância como um carinho
que faz com que nossas mentes se encontrem
e juntas se entreguem ao gozo
que nossos corpos sentem em ter um ao outro

Ai, é noite de tempestade, querido
a chuva está tão forte... o vento tão frio
e eu aqui a pensar em ti...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Doce infancia



Doce infancia
Toque dos anjos
luz da aurora no sorriso

Hoje eu estou feliz

ontem uma criança
me ofereceu uma rosa!

O tempo e os rastros (Monólogo em versos)

O TEMPO E OS RASTROS (Há uma senhora sentada, olhando para a plateia. Ela quer nos dizer algo, mas tem dúvida de como fazê-lo, plane...